Inauguração agendada para 15 de setembro (sábado), pelas 16H00, no Centro Português de Fotografia.

—–
© Júlio de Matos

Casas de Brasileiro, fotografias de Júlio de Matos
1º piso do edifício: Sala Aurélio da Paz dos Reis, até 12 de fevereiro

Criador do primeiro Curso Superior de Fotografia no Porto e no Norte, introdutor de processos e correntes que atravessavam o mundo fotográfico nos anos oitenta do século XX, Júlio de Matos é acima de tudo um experimentalista que não se deixa subjugar por escolas e modismos. Tem percorrido diversas temáticas, salientando, em qualquer caso, a forma de aliar a sua sensibilidade fotográfica ao processo de representação.

Casas de Brasileiro é um seu trabalho de 2008 que já foi apresentado e notado internacionalmente. Para lá da sua importância de investigação documental, este conjunto de notáveis moradias, chalés ou “manuelzinhos” de emigrantes e torna-viagem portugueses do século XIX e inícios de XX é uma série notável de abordagem estética, muito contemporânea, (planos horizontais, distâncias, ângulos) das mais sugestivas moradias que a elite endinheirada dos brasileiros foi edificando por todo o país.

As imagens de Júlio de Matos, em sépia esclarecida, conseguem destacar os estilos emprestados pelo Brasil urbano, pelo ecletismo da segunda metade do século XIX e, de forma impressionante, a ânsia de poder, conforto elitista e riqueza que estas casas, os seus jardins e os seus detalhes nos transmitem. E aí cabem, sem se degladiar, afetos e reflexão.

—–
Legenda: Brasil – Rio de Janeiro; Grupos na cervejaria – 1909
Arquivo de fotografia do CPF/DGLAB – APR 6612
© CPF/DGLAB-SEC

Mar de Sonhos, fotografias de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931)
2º piso do edifício: Sala de Reuniões, até 2 de dezembro

Na primeira contagem da população portuguesa, no Recenseamento de 1864, o número de habitantes era pouco mais do que 4 milhões e trezentos mil habitantes. Lisboa e Porto rondavam os 450.000, Aveiro pouco mais do que 250.000. O crescimento manteve-se moderado, pois Portugal desenvolvia uma economia complementar dos grandes países em industrialização. Em todo o caso, em 1900 ultrapassava os 5 milhões.

Os movimentos da população dirigem-se fundamentalmente para as cidades, sem crise, mas com um fluxo contínuo. As cidades com porto de mar orientavam-nas, muitas das vezes para a emigração.

O mar, desde o século XV, é a grande via de saída e a emigração um modo de vida: para o Oriente, para o Brasil, depois para os Estados Unidos e o Canadá, as elites, de forma continuada, para a Europa.

No século XIX e início do século XX este “mar de sonhos” leva os portugueses preferentemente para o Brasil: para os seringais da borracha ou para aquele serviço que sempre atraiu o português, a pequena loja. O Brasil, unido por continuadas carreiras transatlânticas é quase um prolongamento do país, que alimenta o seu orçamento com as remessas dos emigrantes. Navios como este, o “Astúrias”, que transportou o fotógrafo Aurélio da Paz dos Reis em 1909, tinham distinção de classes; nesta que vemos nas imagens, juntavam-se os viajantes de ida e volta, em serviço, passeio ou em negócios, como Aurélio. Com direito a diversões de bordo, convívio com o comandante, teatro e variedades. O português que negociava, seguia para o Brasil tentado pelo vasto mercado brasileiro; porque tinha aí amigos e conhecidos, porque o Brasil era ainda “a terra das patacas” e os “brasileiros” endinheirados, mecenas por gosto ou por prestígio eram o modelo e a justificação.

Aurélio da Paz dos Reis era floricultor e acumulava diversos artigos concessionados. Como fotógrafo semiprofissional, – hoje reconhecidamente um dos melhores fotógrafos da sua época – as viagens proporcionavam-lhe contactos e vendas de fotografias. No regresso trazia séries estereoscópicas do Brasil e para lá levava as feitas em Portugal.

Os sonhos dos portugueses podem ser pequenos e grandes; são sempre sonhos, mas significam, antes de tudo, a gestão das oportunidades que o mar lhes oferece.

—–
© Ana Miriam

Sossego City, fotografias de Ana Miriam
2º piso do edifício: Sala Joshua Benoliel, até 2 de dezembro

“Sossego City” é um território desordenado, desproporcionado e ruidoso. O seu tecido urbano é uma manta de retalhos, rasgada por autoestradas e caminhos-de-ferro, onde a fragilidade de pequenas construções improvisadas e a solidez pesada das infra estruturas que dominam a paisagem, se encaixam involuntariamente. É um cenário feito de contrastes, que se constrói em escalas, modos e tempos diferentes.

Esta série é sobre uma forma de habitar esse território estranho e imprevisível, sobre a forma como os seus habitantes o domesticam e o tornam seu. Surpreendentemente, a palavra “Sossego” surge muitas vezes quando falam do lugar onde vivem. Assim, nestas imagens, a velocidade e a violência urbanas estão em pano de fundo, evocando-se a calma e o tempo que foi possível encontrar no seu interior. São pequenos espaços em que o rural se mistura com o urbano e o público com o privado, indícios de uma vivência que não corresponde à ideia contemporânea de cidade.

A degradação é evidente e o mais provável é que estes locais, situados na zona oriental do Porto, não tardem a desaparecer. Mas alguma coisa neste modo de vida, com evidentes raízes num passado rural, parece questionar o futuro. “Sossego City” é uma perspetiva sobre um momento da história deste território e uma reflexão sobre as pistas que nele se possam eventualmente encontrar, para uma forma reinventada de viver o espaço urbano.

—–

Informações complementares
Horário do centro de exposições: 3ª a 6ª das 10.00h às 12.30h e das 15.00h às 18.00h/Sáb. Domingos e Feriados das 15.00h às 19.00h
Entrada Livre