As flores das amendoeiras estão em flor. Não estou no melhor sítio para registar tal obra mista da Natureza e do Homem, onde a Natureza comanda o ciclo das árvores e o Homem define a geometria na forma e na localização das árvores. Pelo que conheço e pelo que também se sabe de há muitos anos, continuo a ver Trás-os-Montes como o melhor sítio para abrir a boca perante essa bela combinação. Estou no Alentejo, onde as amendoeiras podem ser mais escassas e onde não se fala delas da mesma maneira, mas onde as flores numa árvore continuam a ser um espetáculo ao mesmo nível das amendoeiras Transmontanas, ou das ameixieiras japonesas tão veneradas no Japão e no mundo. É um espetáculo digno de observação e espanto.

Contudo, fotografar as amendoeiras em flor não é fácil se se quer evitar os lugares comuns, ou se se quer fugir do mero registo das árvores como se de um livro de Biologia se tratasse. E, como Fotógrafo, tenho a obrigação de ser especialmente crítico e exigente nesta noção e na execução das coisas. Precisamente, antes de registar esta fotografia desenvolvo um processo de observação cuidada, de procurar resultados novos e diferentes dos tais lugares comuns, e que até quebrem com as regras mais comuns na Fotografia.

Tento procurar clarões na lente (do Inglês, flare). Segundo muitos contra as regras, mas tento ir buscar efeitos interessantes e inesperados que apareçam. Trabalho também os contra-luzes com o Sol baixo e atrás das flores, abrindo o diafragma ao máximo para fazer uso ao máximo do bokeh que a lente me dá. Foco no infinito, em modo de focagem manual, colocando as flores e ramos em primeiro plano. Cada flor, nas suas cinco pétalas singelas, estames e corola, transforma-se num círculo de confusão, usando a designação técnica para o fenómeno de difração levado ao extremo. Os ramos quase que desaparecem, também porque estão menos iluminados no contraluz do que as pétalas semi-transparentes das flores. Começo a ter os ingredientes que precisava: as admiráveis flores no pico da floração, o Sol atrás e baixo para o contraluz, umas oliveiras no infinito com contra-luzes definidos, uma lente luminosa, máquina na mão e, importante não esquecer, o “ver” antes do clique para começar a obter fotografias diferentes. Reparo agora que eu mesmo então pratico a combinação entre Natureza e Homem, como a outra que referi no início desta crónica.

Vou fazendo várias fotografias, mudando distâncias, enquadramentos e ângulos, enquanto vou enchendo a máquina de círculos de confusão. Até que, numa ocasião inesperada e sempre com o visor à frente do olho, passa um pássaro dentro do retângulo e registo mais uma nova fotografia, a desta crónica. Não tenho dúvida que este foi um daqueles momentos que uma verificação no LCD teria significado a perda da ocasião. Se eu fizesse como muitos Fotógrafos, sempre a verificar no LCD o que vou obtendo uma-a-uma, até dando-me ao luxo de perder tempo a ver histogramas à frente de ocasiões imperdíveis, nem tinha visto tal ave.

Ao fim ao cabo acabaria por não a perceber nem dela ter consciência, não contribuindo para a minha menor felicidade. Mas o que é certo é que eu sorrio, porque a vi, estava preparado e fotografei. E não tenham dúvida que contribui para a minha maior felicidade.

Vejo então as experiências de capturar os círculos de confusão complementadas com as asas abertas de uma ave generosa, com penas bem focadas no infinito e um movimento bem congelado no ar. Num marco temporal significativo, esta fotografia vem substituir todas as anteriores, onde meras experiências óticas são agora premiadas com um instante único e com algo que me parecia agora nunca poder ser excluído desta fotografia – a sorte de registar a passagem da ave, no local certo, à hora certa, na composição certa. Passados 5 minutos nem sequer o Sol já me permitia ter os efeitos de difração que obtivera antes. Quanto mais o luxo de ter uma ave-modelo a voar em liberdade, num contraluz diferente.

Engraçado – mais um exemplo de combinação feliz entre Natureza, a passagem da ave, e Homem, o controlo da máquina.

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João M. Gil
Interessou-se pela fotografia desde os seus 10 anos. Foi fotógrafo amador até 2007. Depois de 10 anos noutra carreira, escolheu ser fotógrafo profissional, de Paisagens, Gentes e Culturas. É praticante do montanhismo e amante da Natureza, no usufruto e na forma de viver.
www.alma-lux-photographia.com

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Não perca na próxima edição da zOOm (n.º 16), em papel, mais uma crónica “Fotografias com histórias por detrás das lente”.