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No Brasil, de amigos e família, trabalho e férias, contrastes, equilíbrios e desequilíbrios, riqueza e pobreza, tremendas alegrias e gigantes sofrimentos. Mas também de boas músicas, gente simpática, corpos e caras belas e de todas as cores, Natureza bruta e boa fruta no ‘café da manhã’. E só vi um ‘troço’ pequeno, como turista… com a máquina fotográfica.

Para além do mais importante, que foi estar com amigos, tenho memórias de coisas engraçadas ‘de ir viajando’: uma loja de impressão fotográfica no meio do caos de cabos elétricos e de casas a cair; ver do lado esquerdo da estrada um mega-centro comercial, com outro templo de igual volume do lado direito, o de uma mega-igreja que já se diz universal; comunicarmos com todos de igual forma, vendo que muitos dos próprios Brasileiros não o fazem, resultado das enraizadas segregações; de andar na rua a pé, à chuva, ouvindo o fechar de portões e correntes, em plena cidade; de andar no ‘ônibus’ sem problemas; de me rir com as piadas sobre nós os portugueses, “pois pois”; de conversar com os taxistas do Rio, que nos identificavam logo; de rir com a conversa com um taxista sobre educação e universidade, TV, classes sociais e sobre como com o seu cabelo ‘Tõimõim’ (palavras dele, e risos de todos) vai educando bem os seus filhos; de bebermos um ‘suco’ no meio da hora de ponta no centro do Rio; ou de conversar com um colega fotógrafo na entrada dum casamento faustoso que ele ia fotografar, dizendo ele aos seguranças que eu era uma colega amigo e que podia entrar para ver o interior e os arranjos da igreja (eu estava vestido “à turista”, no meio dos vestidos de gala ‘chiquérrimos’ e dos guardas que me olhavam de cima-abaixo); de sermos conduzidos por uma rua escura com gente a escolher lixo (agora vejo isso na Europa), terminando num outro mega-luxuoso e mega-produzido casamento de ‘outro mundo’; dos bairros ‘populares’ onde se pode ter uma casa onde se vive bem e ‘bem tranquilo’; de admirar e entender as curvas que o Jorge Amado descreveu por linhas direitas; de vibrar com a música de Salvador, ao sabor do ‘acarajé’ na boca; ou de pedir mais ‘Bolo de Rolo, cortado bem fininho’, depois de repetir a ‘tapioca com queijo coalho e côco’; (…) mas também de sentir e ver muitas “bolhas”, algumas quase a rebentar, como noutras partes do mundo.

Também é o país para onde alguns amigos e família foram recentemente, para trabalhar; uns hoje a fotografar no meio das manifestações do Rio, combatentes e revoltados mas, ainda assim, com as caras lindas do sol de Ipanema, de outros melhores dias; outros apaixonando-se de gente, da alegria e da doçura dos Brasileiros; outros simplesmente trabalhando ‘no duro’.

A fotografia desta crónica, agora que olho para ela com mais atenção, parece-me reunir tudo isto e ainda mais, numa metáfora rica. Como é possível, apenas com 5 pessoas, 1 noiva, 1 fotógrafa e 1 assistente, 1 mulher vindas das compras, 1 homem indo para o seu trabalho, 1 “soft-box” na mala, 1 sinal de proibido para peões, 1 estrada e 1 parede? É em Brasília, nas avenidas do centro. Depois de ter ido fotografar a arquitetura de Niemeyer, no centro do poder brasileiro com a responsabilidade de tanta coisa. Depois de ver a força na gestão da imagem, música e pessoas, por parte dos sindicatos na zona dos Ministérios. Depois de passar a pé na Rodoviária do centro, no meio de dezenas de ‘ônibuses’, de centenas de pessoas do ‘povão’ e de gases de escape negros, pesados e autocolantes.

Aparece uma noiva. Branca. Lança luz, no meio da confusão. Tem umas flores vermelhas na mão. É seguida de uma Fotógrafa e uma assistente. Simples, despretensiosas e ativas, admiro-as e… puxo da máquina.
Aquela nuvem de branco naquele lugar era como um sonho, uma metáfora dos tais contrastes, para mim. Vou pensando: “Porque estão aqui a fotografar?”, “terá sido aqui que a noiva e o companheiro se encontraram?”, “que contraste excecional e “que fotografias divertidas devem estar a conseguir”!

‘Pois bem’, agora que escolho esta fotografia para uma crónica, ‘saco ainda mais desse troço aqui’. O que vejo, em detalhe, são as inscrições na parede – ‘caça vazamentos’, ‘abra os olhos’, ‘contra’, ‘respeite os usuários’, ‘Pazciência’. Vejo também que a posição da noiva, com o ramo vermelho à frente ao centro, iluminada com a luz difusa do lado esquerdo, revela um olhar pensador. Em direção do futuro? E há outra coisa mais, que assumo que não resultou de escolha consciente, mas que resultou de um conjunto de fatores que, montados, subliminarmente me conduziram à fotografia final: limitei-me a compor a noiva ao centro, fator muito presente nas minhas fotografias; aproveitei a ocasião das fotógrafas e da noiva estarem separadas, a uma distância estranha. Não contando a história, dou a ideia que a noiva está ali, simplesmente ali, numa magia ou loucura de realidade de vida que a acompanha, pelas ruas de Brasília. Uma vida mais nas ruas do Brasil, ao mesmo tempo com uma energia especial e cheia de luz.

E, como disse, há a tal coisa mais, fruto da sorte que fui fazendo: ‘Os 5 anéis dos Jogos Olímpicos, pocha’!

Nota sobre o texto: segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Muitas das expressões separadas por ” devem ser lidas em Português do Brasil, se o leitor for Português. Se o leitor for Brasileiro, espero não me ter enganado em nada!

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João M. Gil
Interessou-se pela fotografia desde os seus 10 anos. Foi fotógrafo amador até 2007. Depois de 10 anos noutra carreira, escolheu ser fotógrafo profissional, de Paisagens, Gentes e Culturas. É praticante do montanhismo e amante da Natureza, no usufruto e na forma de viver.
www.alma-lux-photographia.com

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Não perca na próxima edição da zOOm (N.º 17), em papel, mais uma crónica “Fotografias com histórias por detrás da lente”.