Entre os dias 6 e 27 de Outubro de 2013, encontra-se patente ao público, na Casa da Esquina (Coimbra), a exposição “Between the lines” de Nuno Ferreira, integrada no Encontro Internacional Coimbra 2013 – Fotografia/Multimédia.

“Quando se parte para um trabalho como este, a reflexão sobre o que é “boxe” passa por várias instâncias. Não necessitamos ser adepto deste desporto para o conhecer minimamente. Tal como os gladiadores clássicos, estes, do nosso tempo, fazem parte das nossas referências visuais. E independentemente de preferirmos Robert de Niro em “Touro Enraivecido” ou Sylvester Stallone em “Rocky”, há algo nestas personagens que nos atrai. São, por norma, aquilo que os americanos apelidam de “underdogs”, aqueles de quem ninguém espera muito, condenados quase sempre à derrota, mas propícios à realização do “american dream”. De facto, os conceitos de “underdogs” e “american dream” andam de lado a lado no que diz respeito a registos cinematográficos. Dão sempre um bom filme. No entanto, esta dicotomia remete-nos para um outro processo, aquele que reflecte no porquê de nos sentirmos atraídos por ela. Será que é o lado mórbido que nos faz abrandar na estrada à passagem de um acidente? Ou será uma certa empatia com aquele que luta para vencer, para sobreviver. Algo de mais básico, mais instintivo. Ainda resta no nosso ADN reminiscências primárias que nos impelem para a luta pela sobrevivência? Desta forma podemos equacionar sobre a essência do boxe. Será a violência a sua génese ou a encenação de algo diferente? Aceitemos, de forma a permitir este raciocínio, que mais do que o exponencial de uma violência, o boxe apresenta-se como uma representação ritualizada do jogo de sobrevivência que os nossos antepassados tinham que dominar. Tudo é conduzido de forma a cumprir-se este propósito. Temos dois actores, mediados por um terceiro elemento, um cenário, luzes, cores vibrantes, um guião. A sineta dá a deixa e a acção deve desenrolar-se de acordo com o previsto, dentro do espaço de tempo para ela reservada. Intervalo.
Voltando às personagens interpretadas por Robert de Niro e Sylvester Stallone, Jake La Motta e Rocky Balboa, observamos que a primeira, adopta um comportamento agressor para além do ringue. A realidade do tapete transpõe as cordas e domina o carácter de Jake. Desta forma podemos pressupor que a vida exterior condiciona o atleta e, por sua vez, a vivência do ringue espelha-se nela. Teremos então também uma representação do espaço exterior dentro das linhas. Desta forma temos personagens boas e más, personagens com que simpatizamos, vibramos e sofremos, o herói, e personagens que não gostamos, que sentimos um afastamento emocional, que preferimos ver perder, o vilão.
É nas entrelinhas que se desenrolam as narrativas que aqui se procuram. Nas entrelinhas ou entre as linhas formadas pelas cordas. Dentro do ringue o tempo parece abrandar. São dois corpos que dançam ao ritmo um do outro. Avanços e recuos. Toques. Sons surdos. Pausa. Fora das linhas são mais que dois. São muitos. Mas habitualmente sós. Isolados no seu espaço. Treino. Pausa. Treino. Uma história que não se conhece. Não interessa conhecer. Está fora das linhas. É no ringue que tudo se concretiza. É ali dentro que se vive, que se respira. Dois corpos que se encontram para mais uma dança.”

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Nuno Ferreira, Porto, 1975.
Licenciou-se em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Frequenta actualmente o Mestrado em Estudos Artísticos – Estudos Museológicos e Curadoriais na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto onde prepara a defesa da dissertação “Curadoria e Transgressão: Olhares sobre exposições com fotografia de nu infantil nos últimos trinta anos”. Trabalha na Associação Espaço T desde 1998. Ministra formação em áreas como Animação Sociocultural e Fotografia. Nesta última área tem desenvolvido e colaborado em diversos projectos, publicações e edições, coordenação de exposições, reportagem e edição fotográfica, bem como em exposições colectivas e individuais das quais se destacam “Primeiras Luzes” no Palácio das Artes (Porto, 2011) e “Paris Polaroid” no Centro Português de Fotografia (Porto, 2012).