Paisagens Interiores

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Sónia Guerreiro

É fotógrafa e leciona workshops. Faz da natureza, as pessoas, a arquitetura os seus modelos de eleição. Eis Sónia Guerreiro, a mulher que fotografa por paixão.

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Do Ver ao Sentir
Cada fotografia é um retrato do fotógrafo. E é um retrato fiel. Um observador atento encontra em cada fotografia que tem diante de si um pouco da história deste, da sua experiência, crenças e valores que fizeram ou fazem (ainda) parte do seu caminho. Essa bagagem emocional fica registada em cada fotografia que nós, enquanto fotógrafos, criamos.

As nossas fotografias são o espelho do nosso estado de alma, quem na realidade somos e como nos sentimos. E essa é a nossa assinatura. Podemos ter um determinado estilo a editar e pós-produzir e as nossas fotografias serem automaticamente associadas ao nosso nome por isso. Mas há um outro tipo de assinatura muito mais indelével que precede esta. Podemos chamar-lhe, para já, uma assinatura emocional.

E por isso para mim fotografar paisagem é mais do que “é assim que se vê”. Para mim “é assim que se sente”… Mas chegar aqui não é fácil. Do Ver ao Sentir há todo um mundo de distância com muitas dúvidas e questões pelo meio. No meu caso posso partilhar convosco que foi necessário desaprender algumas coisas para voltar a aprender outras, embora de uma outra perspetiva.

Inicialmente recorria muito à técnica, ao equipamento e às regras muito fruto da aprendizagem que tinha através de livros e revistas da especialidade. Mas a técnica trazia-me um problema. Não me dava liberdade criativa. Liberdade essa que eu tanto preciso sentir para poder concretizar o que vejo numa única imagem.

Perante esta limitação comecei pouco a pouco a desafiar o que tinha aprendido e o meu estilo fotográfico foi-se tornando mais prático e dei por mim a reduzir drasticamente o nível de tecnicismo (a quantidade de equipamento também!) e a ser mais intuitiva no processo criativo. Desta forma sinto-me mais livre das rígidas amarras das regras e da técnica outrora aprendidas e tudo flui com mais naturalidade e torna-se mais fácil fotografar as coisas tal como as vejo e sinto.

Algures no tempo todos teremos os nossos desafios (este foi o meu) e ultrapassá-los torna-se tão mais fácil quanto é o nosso autoconhecimento. Um dos métodos que podemos utilizar para isso é fazer uma lista dos nossos valores pessoais.

Os nossos valores são como um farol que ilumina o nosso caminho. Eles estão na base das nossas decisões, das nossas crenças, das pessoas com quem nos relacionamos e neste contexto, na forma como fotografamos. São eles que nos guiam no nosso dia-a-dia a um nível inconsciente e tornam-se muito mais poderosos quando os conhecemos e os sabemos utilizar. Conheçam-nos e passarão a ter a vossa própria luz interior que (quer acreditem quer não!) aparecerá nas vossas imagens. É a tal assinatura que vos falava anteriormente.

Igualmente importante a saber quais são os vossos valores é saber o que eles significam para vocês. Porque todos somos diferentes um valor como a liberdade pode ter um significado diferente para mim e para si. Então o meu conselho é que além de listar os seus valores, descreva como os vai aplicar no seu processo criativo.
Partilho convosco alguns dos meus que ainda hoje, mais do que nunca, são transversais à minha forma de fotografar e não apenas à fotografia de paisagem.

Visão – Crer para ver
Há o ver para crer e há o crer para ver. Pessoalmente sou mais fã desta segunda opção. Imagino na minha mente os cenários e depois sigo em busca deles. Às vezes espero dias, meses, anos, horas, dias, segundos… Mas há uma coisa que aprendi e que a paisagem sempre me ensinou. Qualquer visão é concretizável havendo tempo, disponibilidade e oportunidade.

Alentejo. Demorou, mas os minutos passados debaixo das estrelas passam a voar. Via láctea alinhada com a eólica numa fotografia metafórica em que na minha visão parece que aceitamos e abraçamos tudo o que existe e não vemos, os mistérios do universo.

FLEXIBILIDADE – Controlar o incontrolável
É impossível controlar o incontrolável. A natureza é um estúdio natural. Não há botões para ligar e desligar luzes e mudar os projetores para fazer a luz incidir onde nós queremos!
Não adianta ir para o campo com ideias pré concebidas a menos que o nosso objetivo seja a frustração. O que imaginámos pode ou não acontecer. Devemos ter a flexibilidade para nos ajustarmos ao que a paisagem nos oferece naquele momento.

Praias e céus azuis ao pôr do sol = arqui-inimigos da fotografia?! Errado. Há sempre alternativas. Num dia de céu azul em que aparentemente nada havia para fotografar na praia recusei-me a ir para casa sem uma fotografia. Olhei para a areia e captei a água a embalar as rochas que criou aquele efeito de neblina. Curiosamente esta foi a fotografia que mais vendi numa das exposições que organizei.

DICA: Como praticar a flexibilidade?
Recusar-se a ir para casa sem uma única fotografia. Levem pelo menos uma que gostem.

Liberdade – Ver o que os outros não vêem
4 fotógrafos entram à vez dentro de 1 metro quadrado para tirar uma fotografia. O que muda?
TUDO. Cada um tem em si um conjunto de experiências que altera a sua perceção sobre o todo e a isso eu chamo liberdade de expressão. Ver o que os outros não vêem e ter a coragem de romper correntes. Ver o detalhe enquanto os outros vêem o plano maior. Quando comecei a fotografar só via os grandes planos. Ao longo do tempo fui-me focando cada vez mais nos detalhes. Essa foi a evolução natural do meu percurso.

Braveheart é o nome desta fotografia que se assemelha a um coração nas águas agrestes de Rio Tinto, o rio vermelho, em Espanha.

Coragem – De fazer diferente
Quantos de nós já excederam aquilo que achavam ser capazes de fazer em prol de uma boa imagem? É dessa coragem que eu falo. O ser capaz de ir mais além e superar as nossas próprias expetativas. No final são essas que verdadeiramente importam.
E não falo apenas de ir a lugares arriscados. Falo de assumir composições diferentes. Ir aos mesmos lugares e ter a coragem de fazer diferente sem medo do que os outros vão pensar das nossas imagens. E também não é ir contra corrente, é fazer uma corrente nossa. Fazer o que mais ninguém faz. Isso sim, é ousadia. Desafiar o comum, o ordinário e torná-lo extraordinário.

Pôr do Sol no Cais Palafítico da Carrasqueira, Alcácer do Sal. Experimentem ir ao Google e pesquisar um dos locais mais fotografados em Portugal: cais palafítico da Carrasqueira. E vejam se lá encontram uma imagem destas. A coragem de arriscar resulta muitas vezes em imagens inesperadas, e neste caso em particular, muitas picadelas de mosquitos e melgas também.

Silêncio – Interior. Parar a mente por uns segundos.
Uma das coisas que mais aprecio quando vou fotografar paisagem é o silêncio. Adoro cada momento em que a mente pára por uns breves instantes e simplesmente está ali. Só isso… A preparar o coração para sentir. Quando estes dois se alinham está feita a fotografia. Para mim há dois tipos de silêncio: o meu e o da paisagem. O último dá-me a calma necessária para observar o que quero fotografar e o meu silêncio interior conduz a abordagem criativa ao cenário.

Lago di Braies, Dolomitas, Itália. Se tivesse de escrever uma carta ao silêncio era aqui que a mandava entregar.

Respeito – Não há certos nem errados
Seguindo tudo o que vos falei atrás, descobri que a fotografia de natureza também me ensinou a respeitar-me mais como pessoa e como fotógrafa. Intrinsecamente isto fez com que o mesmo acontecesse ao meu redor. Passei a aceitar mais as diferenças entre uns e outros e compreender que o que cada um retira da paisagem é somente aquilo que necessita ou consegue interpretar. Não há certos. Não há errados. Há visões. E essas são únicas tal como o ser que as concretiza numa imagem.

Seljalandsfoss, Islândia. E a minha visão para esta imagem é que que queria que ela fosse diferente de um sítio que já foi fotografado milhões de vezes sem perder a sua essência. Assim optei por deixar em primeiro plano aquela rocha para deixar à imaginação do observador como seria lá estar.

DICA: Quando chegam a um local não o “violem”. Antes de retirarem o equipamento da mochila e se começarem a preparar… observem! Demorem tempo a perceber o que é que a paisagem vos está a dizer. Podem ficar surpreendidos. Talvez até vão com aquela fotografia feita na vossa cabeça e talvez tenha chegado o tempo de documentá-la fotograficamente. Mas será que a natureza não terá uma diferente e mais interessante para vos dar? Se repararem, quando estão a respeitar a natureza, de alguma forma estão a respeitar-se a vocês mesmos e o retorno é sempre positivo.

Tempo e Lugar – Ritmo, calma e velocidade
Para tudo há um tempo, um lugar e há que gerir expetativas. O fotógrafo de natureza e paisagem torna-se um excelente guarda-redes das fintas que ela nos faz. Há que respeitar os ritmos, a calma e a velocidade. Saber sentir a calma e a tranquilidade e estar preparados para entrar em ação quando menos se espera.

Dolomitas, Itália. Às vezes acontece isto… É “só” esperar que o vento pare de soprar por um segundo. Um segundo é o tempo que têm para fazer a imagem que trazem na vossa cabeça: o lago espelhado, sem neblina.

DICA: Conheçam a vossa câmara. Tapem o visor LCD, desliguem os visores eletrónicos das câmaras e tirem fotografias sem apoio visual e as simulações de exposição. Aprendam a ser rápidos.

Aventura – Ir para fora cá dentro (de nós!)
Ir mais longe. Ir mais além. Manter a mente distraída em novos projetos. Em novos locais. Novas viagens. Espairecer o olhar noutro tipo de paisagens. O difícil será escolher a geografia física, começar a incluir a humana ou ambas? Ultimamente já escolho ambas, o melhor de dois mundos.

Dica: Fazer duas viagens por ano. Uma ao ritmo do vá para fora cá dentro. E outra, se possível, para fora.

 

Ficha técnica das imagens deste artigo:
ISO: não tem importância!
Abertura: de mente, o mais possível!
Tempo de exposição: o suficiente até captar a emoção por detrás da cena!

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