“A rua é o meu estúdio”

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Rui Palha

"A fotografia é uma parte muito importante do meu espaço ... é descobrir, é capturar dando fluxo ao que o coração sente e vê num determinado momento, é estar na rua, experimentar, entender, aprender e, essencialmente, praticando a liberdade de ser, de viver, de pensar… ”
Nascido em abril de 1953, Portugal. A fotografia é um hobby desde os 14 anos de idade, com grandes interrupções até 2001, desde então quase todo o tempo é dedicado à fotografia de rua.

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Fotografa como poucos, a cidade e as suas vidas. E só precisa de duas cores para o fazer: o preto e branco. Habituou-se a passar despercebido, como convém a quem faz fotografia nas ruas. Eis Rui Palha, fotógrafo amador e aprendiz até ao fim.

Há ou não algum segredo para a fotografia de rua? Uns dirão que sim, que há, mas não contam, porque os segredos fizeram-se para não para ser revelados.

Outros dirão que não senhor, não há cá segredos. É o caso de Rui Palha: “A fotografia não tem segredos, tem é aprendizagem constante. A rua é o meu estúdio, as pessoas que por lá andam são os meus ‘modelos’ ”.

Leica D-Lux 4 . @5.1mm . f/2.8 . 1/100″ . ISO 80

Não há segredos, mas há um punhado de técnicas que é necessário aprender e pôr em prática: “Há que tentar compreender e tentar dominar as diversas condições de luz o melhor possível, estar sempre atento ao que poderá vir a acontecer à nossa volta, antecipando o ‘tal’ momento, que torna uma fotografia vulgar numa fotografia especial. A preocupação do enquadramento ideal deverá estar sempre presente, tem de se visualizar o momento numa fracção de segundo e dentro duma área que seja esteticamente boa e/ou criativa”.

Mas, acima de tudo, quando se fotografa nas ruas é fundamental obedecer a um princípio básico: “tem de se respeitar as Pessoas, saber ouvi-las, ganhar a sua confiança. Isto é fundamental”.

E fundamental é também uma certa fusão entre todos os elementos que participam na fotografia. Confusos? Rui Palha ajuda-nos a perceber melhor, recorrendo às palavras de um dos seus artistas de eleição, Henri Cartier Bresson: “A cabeça, o ‘olho’ e o coração devem estar no mesmo eixo”.

Nikon D700 . @28mm . f/6.3 . 1/160″ . ISO 1000

“Temos de ter a capacidade de antecipar, compreender, ‘ver’, ‘sentir’ uma cena de rua numa fracção de segundo e devemos registar esse momento num enquadramento, se possível, perfeito. O sentido composicional é fundamental, não somente o registo do momento. Para isso dever-se-á ter a cabeça, o ‘olho’, o coração… e o dedo, no mesmo eixo”, explica Rui Palha.

Este “eixo” é, na opinião do nosso convidado, o elemento que distingue um verdadeiro fotógrafo de rua de “um vulgar ‘caçador’ de momentos, sem qualquer critério, ‘disparando’ sobre tudo o que mexe”.

E, nestas coisas, a forma como nos integramos no meio pode ser a chave de uma boa fotografia. “Muitas vezes, devemos ser invisíveis, fazer parte integrante do cenário, isto permitir-nos-á uma grande proximidade a certas situações mais problemáticas. Outras vezes temos de estabelecer uma ligação muito forte com os ‘modelos de rua’, falando com eles, escutando-os, respeitando-os”, revela o fotógrafo.

Leica D-Lux 4 . @5.4mm . f/4.5 . 1/60″ . ISO 400

Esperem! Estamos aqui há página e meia a falar do trabalho de Rui Palha, mas ainda não fizemos a pergunta mais básica de todas. Afinal, o que é para si a fotografia?: “A fotografia faz parte integrante do meu espaço… é descobrir, é captar, dando vazão ao que o coração sente e vê num determinado momento, é estar na rua, experimentando, conhecendo, aprendendo e, essencialmente, praticando a liberdade de ser, de estar, de viver, de pensar… ”.

A fotografia ocupa um papel muito importante na vida de Rui Palha. Na vida e no seu dia-a-dia: “O tempo que dedico à acção de fotografar depende do meu estado físico e mental. Se me sinto bem, sob todos os aspectos, fotografo todos os dias da semana pois ando a pé alguns quilómetros pela cidade onde vivo, Lisboa. Se não me sinto muito bem, aproveito para ver milhares de fotografias que fiz, mas que nunca vi, bem como para ‘espreitar’ a net para ver fotografias de outros fotógrafos de rua”.

Mas como é que tudo isto começou? De onde vem todo este encantamento, toda esta paixão pela fotografia? “Apareceu nos meus 14 anos de idade quando comecei a ficar mais atento a tudo o que me rodeava com a avidez, própria de um miúdo, de aprender rapidamente a viver e compreender a vida observando o ‘modus vivendi’ das outras pessoas, anónimas ou não”, recorda.

Olympus C5050Z . @7.1mm . f/2.0 . 1/100″ . ISO 100

E depois veio todo um processo de aprendizagem, que começou na juventude e acabará… sabe-se lá quando! Sempre com a ajuda – que é como quem diz, influência – dos mestres: Henri Cartier-Bresson, Elliot Erwitt e Doisneau.

Ajuda dos mestres e, naturalmente, dele próprio, já que Rui Palha foi sempre um autodidacta. Mas, atenção! Não um autodidacta que se limita ler umas revistas da especialidade e a seguir vai dar uns cliques, a tentar pôr em prática os truques e dicas aprendidos.

Há rigor e método na sua aprendizagem: “A minha primeira câmara foi uma pequena Minolta 16 que me permitiu aprender imenso. Cada foto que fazia escrevia num pequeno bloco toda a informação associada à mesma: hora do dia, condições de luz, abertura, velocidade, etc. Mais tarde, depois do rolo revelado, estudava todas as asneiras cometidas e tentava remediá-las na seguinte ‘sessão’ fotográfica”.

Sem esquecer o engenho e arte indispensáveis a um jovem aprendiz nos tempos do analógico. “Quando tinha 18 anos construí a minha primeira câmara escura, de um modo muito artesanal, mas bastante funcional e onde revelava e imprimia as minhas fotografias (e as dos meus amigos). Era uma tarefa de que não gostava especialmente, sentia que estava a ‘gastar’ o tempo que me faltava para andar pelas ruas, que era o que eu mais gostava. De qualquer modo foi uma experiência da máxima importância e com a qual aprendi muito”, lembra o fotógrafo.

Aprendeu e continua a aprender, já que Rui Palha define-se como um eterno aprendiz. Ou, nas suas próprias palavras, “amador e aprendiz até ao fim”.

Amador, pois, que o nosso convidado já leva umas quatro décadas de fotografia mas nunca ambicionou tornar-se profissional. “Felizmente nunca precisei, em termos económicos, e considero fundamental a liberdade que se tem como amador o que permite fazer o que se quer e não o que os outros querem que se faça. Não conseguiria ser de outro modo”, defende.

OK, Rui Palha é assumidamente amador e quem somos nós para pôr isso em causa. Mas lá que o seu trabalho parece obra de profissional, lá isso parece. Basta olhar para o seu livro e percebemos logo isso.

Editado em Outubro de 2010, Street Photography reúne alguns dos trabalhos mais emblemáticos de Rui Palha. São 240 páginas da melhor fotografia de rua que se pode encontrar em Portugal mas, como todas as coisas boas desta vida, não será fácil de o descobrir.

Além do livro e da Internet – onde tem uma pequena multidão de seguidores – o trabalho de Rui Palha é também conhecido pelas muitas exposições onde participa. “Mais até do que gostaria, pois não sou muito ‘apreciador’ de exposições. Dão muito trabalho, desgaste físico e emocional, despesa e, de certa forma, é um pouco contra o meu feitio recatado e ‘low profile’ ”, refere.

Pelas suas contas, ao longo dos últimos 10 anos fez uma exposição individual por ano: “De qualquer modo sou quase obrigado, por amigos, a fazê-lo que alegam que tenho a obrigação de mostrar aos outros o que faço no suporte próprio para a fotografia: o papel”.

Nikon D100 . @12mm . f/22 . 1/45″

E é nesta altura que, pensando que o apanhamos distraído, reformulamos a pergunta com que a abrimos a entrevista. À espera que Rui Palha caia no engodo e nos revele o segredo para retratar a cidade e suas vidas de forma tão realista.

Há algum tratamento especial na hora da pós-produção? “Utilizo o PaintShopPro 8 de um modo muito básico, níveis, contrastes, ‘Dodge & Burn’ (tal e qual como no tradicional “darkroom”) e, claro, ‘unsharp mask’. Pessoalmente tento obter um resultado final igual ao que obteria com o filme”.

Nada de grandes artifícios, portanto. Até porque não dispensa mais do que dois ou três minutos no tratamento de uma fotografia: “Creio que se deve “investir” no momento do disparo. A leitura de luz deve ser o mais correcta possível, neste caso pouco ou mesmo nada há a fazer num trabalho de pós processamento.”

Nikon D200 . @17mm . f/3.2 . 1/100″ . ISO 400

E agora há que arranjar espaço para uma questão que nos devora desde que observámos o seu trabalho pela primeira vez. É a cidade em si? Ou são as pessoas, o elemento fundamental da sua fotografia? “Pessoas, Gentes… Procuro sempre pessoas autênticas, genuínas e aprendo imenso todos os dias com as pessoas ‘anónimas’ nas ruas”, esclarece o fotógrafo.

E, atenção, que esta omnipresença das pessoas na fotografia não se resume a uma questão de carácter estético. Muito pelo contrário: “Tenho sempre um objectivo sociológico no meu ‘trabalho’ de rua. Estou envolvido em alguns projectos sociais em bairros ditos problemáticos de Lisboa”.

Foi num desses projectos que Rui Palha viveu um dos momentos mais curiosos da sua vida. Durante vários dias fotografou uma comunidade negra, um trabalho que deu origem uma exposição chamada “Crescer com Dignidade”.

“Todos os ‘modelos’ expostos (e outros) que se deslocaram à exposição ficaram maravilhados com a sua própria imagem. Nunca se tinham ‘visto’ assim, a p&b, sem diferenças de ‘castanhez’, como todos referiram. A partir desse dia o número de adeptos da fotografia a p&b cresceu exponencialmente…”, relembra o fotógrafo.

Nikon D100 . @70mm . f/6.3 . 1/125″

E assim chegamos à tão aguardada questão do preto e branco. Rui Palha até aprecia fotografia a cores e reconhece haver grandes fotojornalistas que utilizam cor nas suas fotos. Mas assume ser um defensor do conceito “sem cor, sem mentira”.

“Se, ao olhar-se para uma fotografia a p&b, a sensação for agradável ou se a imagem for cativante é porque a imagem ‘conta’ uma história sem artifícios nem elementos distractivos e, com certeza, a fotografia é boa. Por vezes uma fotografia colorida é apelativa só porque a combinação das cores é bonita e coerente”, defende.

Isso quer dizer que a essência daquilo que fotografamos cabe nessas duas cores? Bastava um “sim”, mas Rui Palha optou por uma citação marcante: “Alguém escreveu, e eu concordo completamente, «Se forem utilizadas cores mostra-se o colorido das roupas, se for utilizado p&b mostra-se a ‘cor’ da Alma»”.

Falta só falar na foto preferida de Rui Palha: “Ando à procura dela…”. Pois… talvez nunca a encontre. Mas se calhar isso não é o mais importante.

O que é importante é que continue a fazer estes impressionantes retratos da cidade. E de nós mesmos. Porque nunca se sabe quando vamos ser apanhados pela objectiva de Rui Palha.

 

(Artigo publicado da Revista ZOOM Edição nº 6)

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