O prazer de fotografar sem tripé

mm

Maurício Reis

A fotografia faz parte da minha vida desde sempre, mas com mais intensidade desde 1999, quando comprei a minha primeira máquina digital, com menos de um megapixel de resolução. Entretanto passaram 20 anos e a paixão continua a mesma. Ou ainda maior. Se é verdade que gosto de todos os géneros de fotografia, desde o desporto, moda, retrato e de rua, é na paisagem que encontro o meu equilíbrio. Gosto de me levantar cedo, ou de ficar bem para lá depois do sol se pôr, gosto de sentir o vento, os sons, a natureza...

Visite o meu Website
Ver todos os Posts

Os tripés podem ajudar a conseguir fotografias (ainda) melhores. Já todos ouvimos, alguma vez, este conselho. Mas será que precisa de ter a câmara sempre presa a este acessório? Neste artigo eu, Maurício, tripé-dependente, aponto algumas virtudes de fotografar à mão.

 

Quem me conhece, sabe que o tripé é um dos meus melhores amigos. Somos quase inseparáveis. Tenho um desde que comprei a minha Canon 400D, em 2005. Não era nenhum topo de gama, mas era robusto suficiente para o equipamento da altura. Era um Slik Pro 330D. Anos mais tarde, arrumei-o e comprei um Manfrotto, em carbono, mais leve, mas ao mesmo tempo mais robusto. Tenho-o até hoje – já muitas aventuras vivemos. Há poucos meses comprei outro, um Rollei Compact Traveler No. 1, mais pequeno e mais leve, para levar no saco de viagem, igualmente em carbono, mas não tão robusto – não se pode querer tudo. Mas há-de servir para me ajudar a conseguir fotografias que de outro modo podiam ser difíceis de conseguir.

Se me pedem um conselho sobre fotografia, a dica que normalmente ofereço é que devem usar ou investir num bom tripé. Por vezes quase pareço um evangelizador, mas não me importo, pois sei bem a importância que tem este tipo de suporte na vida de um fotógrafo. Os tripés oferecem, desde que bem usados, estabilidade e eliminam a vibração da câmara. Com ele todos podemos fotografar com pouca luz e mesmo assim conseguir imagens com qualidade. O nosso amigo de três pernas permite-nos ainda usar filtros de densidade neutra (ND) e polarizador para criativamente conseguirmos prolongar o tempo de exposição a gosto. Alinhar os filtros em gradiente também é tarefa mais simples com a sua ajuda.

Canon 5D MK II . Canon EF24-70mmF2.8 @70mm . f/8 . 1/250″ . ISO 100 – Usar filtros quando fotografamos à mão pode ser tarefa complicada, principalmente quando necessitamos de recorrer aos gradientes. Alinhá-los bem com o cenário é muito mais difícil do que quando temos a câmara num tripé. Mas não é impossível, requer é atenção. Não esqueça que o filtro polarizador é bastante útil, permitindo eliminar reflexos ou aumentar a saturação, mas cortam dois stops de luz, pelo que pode ter necessidade de usar um ISO mais elevado, ou recorrer a uma maior abertura para compensar.

Acredito que já alguma vez experimentou fotografar com a ajuda de um tripé. E, naturalmente, sem ele. Que diferenças sentiu? Talvez uma das mais evidentes, para além das que atrás referi, é que com ele é forçado a abrandar e a pensar melhor sobre composição e técnica. Quando fotografamos com a máquina na mão temos tendência para disparar com mais veleidade, sem tanto cuidado. Assim, em forma de resumo, não estou a ver nada que não me faça gostar do meu amigo de três pernas. Bem, o facto de ter de o carregar podia ser uma boa razão, mas que relevo de cada vez que saio para fotografar.

Mas o objetivo deste artigo não é enaltecer as vantagens do uso do tripé. É exatamente o contrário. E decidi ser eu, logo eu, adepto confesso do tripé, a sentar-me ao computador a escrever estas linhas. Porque, como tudo na vida, nem tudo é tão simples e linear como pode parecer. Recorrer a um tripé nem sempre é prático e há muitas situações em que nem sequer temos tempo para o abrir. Outras há em que a espontaneidade de fotografar à mão nos mostra que é a melhor opção. Há imagens que só conseguimos porque atuámos depressa e não ficámos presos a um acessório. “Eliminar” o tripé também ajuda a ver o que nos rodeia de outra forma, muitas vezes de forma (ainda) mais criativa.

Canon 5D MK II . Canon EF17-40mmF2.8 @17mm . f/4.0 . 1/50″ . ISO 100
Canon 5D MK II . Canon EF17-40mmF2.8 @17mm . f/4.0 . 1/60″ . ISO 100 – Há momentos que se perderiam se quiséssemos usar o tripé. As duas imagens acima exemplificam o que acabei de dizer. A posição em que me encontro com a câmara na mão ia ser difícil de replicar com o tripé e os motivos rapidamente mudavam de posição, obrigando a deslocar-me com eles.

A tecnologia associada à fotografia explodiu tanto nos últimos anos que, posso arriscar dizer, o uso do tripé será mesmo mais uma escolha do que uma necessidade. A capacidade das câmaras atuais de conseguirem fotografar com relativa qualidade em altos ISOs, oferece-nos a possibilidade de não nos sentirmos condicionados a usar sempre o tripé. Felizmente, os fotógrafos de hoje têm a sorte de ter opções, não precisam de usar o tripé apenas por hábito. E, no que me toca particularmente, tenho gostado cada vez mais desta ideia.

Há não muitos meses tive a oportunidade de experimentar fazer fotografia de rua – ou algo parecido, pois o que consegui, para o que realmente é fotografia de rua, vai uma grande distância – e facilmente concluí que usar o tripé seria pouco prático e benéfico. O mesmo podemos aplicar caso se pretenda fotografar desporto ou ação, fotografar pequenos insetos na natureza pela manhã, ou para algumas variantes da fotografia de moda, por exemplo. O movimento dos objetos pode ser tão rápido e imprevisível, que o tripé é mais um obstáculo do que propriamente uma ajuda.

Obviamente, quando fotografamos à mão, a maior preocupação é a velocidade de disparo. Esta deve ser rápida o suficiente para eliminar o nosso próprio movimento. Há uma regra aceite que diz que devemos empregar uma velocidade de obturação equivalente ou superior à distância focal que estamos a usar no momento. Por exemplo, se estiver a usar uma objetiva nos 180mm, selecione uma velocidade de, no mínimo, 1/180″. Contudo, é apenas e só uma regra que não se aplica a todas as situações, até porque muitas objetivas e câmaras possuem sistemas de estabilização bastante avançados, que nos deixam usar velocidades mais baixas; ou que poderá necessitar de um tempo de obturação ainda mais curto para congelar um assunto em movimento.

Agora entro numa parte mais “técnica” e que, em princípio deve ser do conhecimento da grande maioria dos leitores. Mas, igualmente, pode ser ajuda para tantos outros. Para ter uma velocidade de disparo suficiente, tem um par de opções: seleciona uma grande abertura, mas fazendo isto reduz a profundidade de campo, o que nem sempre é desejável, principalmente se estiver a fazer fotografia de paisagem. Ou aumenta o valor ISO – pode ser, para mim, a melhor solução – para manipular o tempo de disparo. Mas, fazendo isto a qualidade da imagem vai começar a degradar-se progressivamente conforme vai aumentando o ISO.

Muitos fotógrafos não gostam muito desta opção, fugindo dela a todo o custo. Mas sejamos realistas, a evolução neste campo tem sido tão grande que a grande maioria das máquinas nos oferece a possibilidade de fotografar a ISO 1600 ou 3200 sem grande problemas na qualidade final das imagens. Não fique preso à sensibilidade mais baixa que a sua câmara é capaz de fazer. Há mais vida para além do ISO 64, 100 ou 200…

Fuji X-T1 . Fuji XF35mmF2 @35mm . f/5.6 . 1/180″ . ISO 200 – Quanto mais robusto for o tripé, melhor aguentará as forças do vento, mas se este for realmente forte, então não há a mínima hipótese de sermos bem sucedidos, correndo mesmo o risco de vermos todo o conjunto voar. Neste dia, para além do vento relativamente forte, a neve caia forte e a família esperava no quente do carro, pelo que não havia condições para montar um tripé. Mas também não queria perder toda a magia que acontecia mesmo em frente aos meus olhos. A solução foi fotografar à mão, com os ombros encolhidos e os braços bem encostados ao corpo.

Há roupa que nos assenta que nem uma luva. Exatamente o mesmo acontece com algumas técnicas fotográficas que são mais eficazes se fotografarmos sem tripé, principalmente quando tentamos ser mais criativos, como por exemplo mover a câmara intencionalmente durante o tempo de exposição, obtendo desta forma um cenário, ou objeto, arrastado. Fotografar à mão também nos permite explorar ângulos menos convencionais, muitas vezes mais aptos a artistas de contorcionismo.

Usar um tripé para fotografar de uma perspetiva alta, ou muito baixa, pode ser uma tarefa para homens de barba rija ou, na grande maioria das vezes, impraticável. Optando por fotografar à mão, acredito que que seja muito mais fácil obter o resultado pretendido – principalmente se tiver a sorte de possuir uma câmara com ecrã articulado. Em jeito de resumo, fotografar sem tripé leva a mais experimentação e o fotógrafo será capaz de mais facilmente alterar o seu ponto de vista, com o objetivo de identificar a melhor perspetiva e altura da câmara.

Canon 5D MK III . Canon EF17-40mmF4 @40mm . f/10 . 1/4″ . ISO 400
Canon 5D MK III . Canon EF24-70mmF2.8 @35mm . f/6.3 . 2″ . ISO 100 – Para efeitos com movimento de câmara intencional (ICM – Intentional Camera Movement), liberte-se do tripé e ganhe liberdade total para mover ou abanar a câmara de acordo com o pretendido. Naturalmente, nunca vai conseguir efeitos iguais, pelo que cada fotografia será única. É uma técnica que envolve alguma tentativa e erro. Nestas duas imagens, a primeira, com as vacas  em movimento, desloquei a câmara na horizontal. Na segunda, com as árvores, o movimento foi de baixo para cima enquanto decorria a exposição.

Como referi atrás, a estabilização de imagem, seja na objetiva, na câmara, ou em ambas, ajuda-nos a obter melhores imagens quando fotografamos à mão, pelo que verifique se tem esta opção ligada (se disponível, obviamente) antes de começar a fotografar. Inversamente, quando voltar a usar o tripé, não se esqueça de desligar a estabilização de imagem da objetiva.

A forma como segura a câmara também ajuda (muito) a ter resultados satisfatórios quando fotografa sem a ajuda do tripé. Se não tiver onde suportar o seu corpo (uma parede, uma porta, um muro, por exemplo), coloque os pés à largura dos ombros e um dos pés ligeiramente à frente do outro. Junto o mais possível os braços e ombros junto ao corpo e tente encostar o máximo possível a câmara à cara. Se conseguir, não respire imediatamente antes e depois de fazer a exposição – inspire, mantenha por um a dois segundos a respiração, relaxe e, feito o disparo, expire.

Se o que deseja fotografar está num posto de vista relativamente baixo, pode usar um dos joelhos como suporte aos braços, enquanto se optar por deitar-se e usando novamente os ombros como suporte, ficará suficientemente estável. Seguindo estes conselhos, ficará agradavelmente surpreendido com as velocidades baixas a que poderá recorrer quando fotografar à mão.

Onde é que entra a Fuji nesta equação?
Não há qualquer dúvida de que sou um fã do tripé, mas trabalhar sem o mesmo pode ser (é!) libertador e permite uma reação mais rápida ao que nos rodeia, ou às condições de luz. Comparativamente com os últimos três anos, nos dez anteriores, durante os quais tive equipamento Canon, poucas vezes fotografei à mão. Naturalmente que o fiz: família em férias; dois ou três casamentos de pessoas conhecidas; dois ou três batizados de filhos de amigos; e eventos semelhantes dos meus filhos. Mas em fotografia de paisagem, muito –  mas muito mesmo – raramente.

Nesse passado, mesmo que as condições de luz fossem interessantes, mesmo que fosse fácil encostar o carro, sair e fotografar, mesmo que estivesse a passar por um local onde poderia ser difícil voltar, se não podia montar o tripé, nem pensava em fotografar à mão e muitas vezes – muitas, muitas – chegava a casa bastante frustrado e, como seria de esperar, de cartão vazio. E foram tantas as situações e locais onde estive em que, ou porque não tinha espaço para  tripé, ou porque tinha a família à espera e não dava para montar todo o equipamento, deixei passar algumas oportunidades.

Em Janeiro de 2016 recebo a minha primeira Fuji, a X-T1 e, como aconteceu com muitos fotógrafos que migraram para a marca, de repente todo um novo mundo se abre à minha frente. Não sei se pelo facto das câmaras terem os botões ali à mão, se o seu próprio design, ou a qualidade dos ficheiros JPG, ou a boa performance em ISOs mais elevados, acabei por começar a fotografar mais à mão, a não recorrer tantas vezes ao tripé, ou a não perder algumas fotos que antes deixaria por fazer, por não querer arriscar fotografar à mão. Ou, então, é tudo psicológico.

Fuji X-T1 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @18mm . f/13 . 1/55″ . ISO 200
Fuji X-T1 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @25.4mm . f/4.0 . 1/140″ . ISO 200
Fuji X-T1 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @18mm . f/2.8 . 1/125″ . ISO 200
Fuji X-T1 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @55mm . f/5.6 . 1/20″ . ISO 200 – Estas quatro fotografias mostram zonas do local para onde costumo ir correr. Por razões óbvias, não faço isto sempre, mas de vez em quando levo a câmara comigo, como aconteceu nestes dias – vantagem das mirrorless e, principalmente, das Fuji, pelo seu tamanho e leveza. Levar o tripé está totalmente fora de questão, afinal vou para fazer exercício físico e não propriamente fotografar. Só que há dias em que as condições de luz são demasiados boas para ficarem apenas na memória. Fotografar à mão é a única escolha possível.

Antes, quando a luz do amanhecer e pôr do sol desaparecia, arrumava o equipamento e ia embora, umas vezes satisfeito com o resultado, outras nem por isso. Fotografar outra coisa que não fosse a linda cor do nascer do sol, ou do crepúsculo, era impensável. Depois de fechar o tripé, terminava ali a diversão. Hoje já não é assim. Hoje consigo aproveitar para usufruir do que me rodeia, sem “medo” de fotografar à mão, mesmo que para isso tenha de usar o ISO ou a estabilização de imagem para conseguir levar para casa fotografias “diferentes”.

Admito que não posso fazer longas exposições, mas naquelas manhãs de nevoeiro, ou quando a luz pinta toda a paisagem, fotografar à mão torna-se tarefa perfeitamente adequada e até indicada. Posto isto, não estou, de todo, a sugerir que abandone o uso do tripé, mas libertar a sua câmara do mesmo, nem que seja de tempos a tempos, vai ajudá-lo a fazer imagens mais criativas, vai aproveitar ao máximo o tempo que está a fotografar e, consequentemente, a divertir-se mais. Afinal, é por isso que gostamos de fotografia, por ser algo que nos oferece mais do que imagens.

Canon 5D MK III . Canon EF70-200mmF4 @200mm . f/4.0 . 0.3″ . ISO 100 – É melhor esquecer o tripé quando o espaço onde queremos fotografar mal dá para nós. Ou quando o motivo a fotografar está numa zona que ficaria comprometida se tentássemos montar o nosso amigo de três pernas, como o que encontrei para fotografar esta teia de aranha ao amanhecer. Fotografar com a câmara na mão era a única possibilidade que tinha.

Mais fotografias feitas à mão
A seguir deixo mais algumas imagens que fiz dispensando o tripé, pelos mais variados motivos: ou a estrada, ou local, não tinha espaço suficiente para montar o tripé; ou estava em passeio com a família; ou perdia o momento se demorasse muito tempo a registá-lo; ou porque simplesmente me deu a preguiça de tirar o tripé da mala do carro – sim, acho que todos temos momentos destes, de “procrastinar”.

Subscreva a nossa Newsletter

 

Assine a nossa newsletter e receba as últimas atualizações e novidades da zoom - fotografia prática.




A sua subscrição foi enviada com sucesso.