“Fotografar pessoas é comunicar, captar expressões e afetos”

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Carla Pires

Embora tenha formação superior na área da saúde, Carla Pires, iniciou-se desde cedo na fotografia. Auto-didacta, a sua expressão imagética levou-a desde 2007 a participar em exposições, concursos, workshops vários, e assistir diversos fotógrafos aperfeiçoando-lhe o gosto e a técnica. Desde então tem-se envolvido em múltiplas vertentes desta arte, tendo fotografado como freelancer para jornais, feito a cobertura de eventos em espaços sociais e desenvolvendo a sua paixão por fotografia de moda e retrato, produzindo e fotografando diversos editoriais. Actualmente executa produções para revistas como a Vogue Portugal, Máxima, DeepArt, Lux Woman, entre muitas outras.

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OK, à primeira vista parece que estamos diante de um lugar-comum: mulher, jovem, a fazer fotografia de Moda. Mas um olhar mais atento para o seu percurso, revela aquela dose de invulgaridade que torna tudo bem mais interessante.

Canon 350d . 50 mm . f/2.8 . 1/800″ . ISO 400
Canon 7D . 50 mm . f/1.8 . 1/60″ . ISO 800

Para começar Carla Pires, fotógrafa, tem formação na área da Saúde – Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica –, mas cedo deve ter percebido que a anatomia que realmente a atraía era a do clique na câmara fotográfica. Por isso, desde muito jovem começou a fazer trabalhos de fotografia: quer como freelancer para jornais regionais e outras publicações, quer fazendo a cobertura de eventos em espaços sociais.

Como veem, nem só de Moda vive a sua objetiva. Mas, afinal, do que vive?
“Continuo focalizada no objeto de sempre: o rosto, o corpo, a expressão ou a ausência desta”, explica a fotógrafa. Ora, o “sempre” de que nos fala a Carla remonta aos tempos da escola secundária, altura em que surgiu um romance com as artes gráficas. Logo seguido de uma paixão incandescente pela fotografia.

Canon 7D . f/8 . 1/250″ . ISO 100
Canon 7D . f/8 . 1/250″ . ISO 100

Claro que nestas coisas de amores e desamores, a aprendizagem faz-se com o tempo: “Sou autodidata, não tenho qualquer tipo de curso ou formação específica em Fotografia ou Artes. O que fui aprendendo surgiu da experiência, curiosidade e empenho. Acredito que fotografar muito, mas acima de tudo com discernimento e calma, é a melhor lição para quem não tem a oportunidade ou a possibilidade de frequentar um curso de fotografia”. E assim foi. Fotografou muito, até se ter tornado num hábito diário: “Primeiro entre amigos, depois com projetos pontuais e hoje com alguns trabalhos e clientes”.

A entrada no mundo da moda fez-se como assistente de fotografia. Aos 18 anos trabalhou com o fotógrafo Paulo Roberto e assistiu com frequência Miguelângelo. Não o pintor italiano… nem o vocalista dos Delfins. Estamos a falar do fotógrafo, entenda-se. Com ele trabalhou em produções para revistas como a EDIT, GQ, Elle ou Lux Woman. Uma experiência com a qual a fotógrafa admite ter crescido muito. “É no terreno que aprendo e observo como contornar obstáculos e dificuldades – nomeadamente de iluminação – e, não menos importante, a estar, a lidar e a conviver com clientes”, explica Carla Pires.

Canon 7D . 50 mm . f/1.8 . 1/500″ . ISO 1000
Canon 7D . 50 mm . f/2.8 . 1/80 . ISO 1000

OK, já percebemos que a Moda é mais do que uma paixão. É parte da sua vida. Mas porquê?
“Enquanto rapariga, adoro o universo, quase de bonecas, da Moda. Muitos dirão que se trata de um fascínio fútil e desinteressante, eu própria já o achei. Mas hoje é um desafio: apresentar coleções e peças específicas (muitas vezes complicadas), adaptar conceitos e a produção à realidade, dirigir a equipa (geralmente grande) e modelos. É um frenesim difícil de gerir mas o processo e o resultado final valem todo o esforço”.

Então e o retrato? Onde é que ele entra no meio de tudo isso?
“A paixão pelo retrato acompanha-me enquanto pessoa que gosta de comunicar. Para mim fotografar pessoas, é isso mesmo: comunicar, captar expressões e afetos”, revela.

Canon 7D . 41 mm . f/10 . 1/160″ . ISO 100
Canon 7D . 25 mm . f/6.3 . 1/100″ . ISO 100

Fotografar pessoas não é tarefa fácil. Aqui há tempos entrevistamos um fotógrafo que dizia preferir fotografar animais, por serem mais colaborantes do que as modelos. Ora, o facto de ser mulher, com uma sensibilidade muito própria, não a coloca em vantagem para extrair o que há de mais belo numa pessoa?
“A maioria dos grandes fotógrafos de Moda e retrato são homens e não acredito que todos tenham uma personalidade feminina. O lado mais belo das pessoas surge quando ambas estão em sintonia para um bem comum. Por isso gosto muito de conversar com as modelos enquanto fotografo, de saber um pouco mais sobre a vida delas, quais as suas paixões, o que as deixa ‘sem jeito’, enfim, pequenos pormenores que em algum momento as farão sorrir e estar naturalmente bonitas”, explica Carla Pires.

Claro que de vez em quando lá aparece uma modelo tão pouco colaborante que é preciso metê-la na linha… do comboio. E quem não gostar, olhe, que chame a polícia. Foi exatamente isso que aconteceu há cerca de dois anos, numa bela tarde de outono, durante uma ousada sessão fotográfica.

Canon 7D . 50 mm . f/2.8 . 1/125″ . ISO 1000
Canon 7D . 61 mm . f/7.1 . 1/160″ . ISO 400

“No caminho entre Sintra e a Praia das Maçãs existe uma ligação férrea antiga onde, durante o verão, costuma circular um elétrico turístico. Enquanto eu fotografava uma rapariga junto aos carris, apareceu a polícia em marcha de urgência e abordou-nos rapidamente. Conclusão: alguém telefonou à polícia a informar que ‘uns quantos miúdos’ estavam a fotografar uma pessoa morta na linha do elétrico. ‘Ò senhor polícia, ela até está bem corada, não acha?’… e, ainda, nos rimos com eles”, recorda a fotógrafa.

Felizmente tudo acabou bem. Caso contrário, lá ia a Carla passar um fim de tarde à cadeia. Um sítio que até é difícil de fotografar, por causa da luz. Claro que isso não seria impedimento para a nossa convidada, já que o seu ponto forte até é o domínio da luz natural: “Gosto muito de fotografar em interior com luz natural, principalmente em casas antigas com boa luminosidade”.

Canon 7D . 106 mm . f/14 . 1/160″ . ISO 100
Canon 7D . 50 mm . f/2.8 . 1/80″ . ISO 500

Eh pá, mas atenção que para isso precisa de andar bem equipada. Nem de propósito, mostre-nos lá o arsenal que o pessoal agora ficou curioso: “De momento possuo uma Canon EOS 7D com a respetiva objetiva de kit, 18-135 mm, mais uma objetiva 50 mm 1.4 e dois flashes externos. Possuo algum material de estúdio, refletores e tripé. A minha favorita é a Holga amarela que anda comigo nas viagens”.

Claro que no meio dessa artilharia toda há sempre material que é mais essencial do que outro. “Gosto muito de fotografar com lentes fixas, em particular a 35 e a 50 mm – embora só possua a última – com aberturas entre o f/ 1.4 e f/2.8. São muito úteis para retrato e com um bom jogo de profundidades de campo permitem uma maior intimidade e enfoque na expressão do retratado”, explica Carla Pires.

Canon 7D . 50 mm . f/2.8 . 1/1000″ . ISO 400
Canon 7D . 50 mm . f/1.8 . 1/2000″ . ISO 400

E depois da sessão fotográfica há que rumar a casa para editar o trabalho. Para isso a fotógrafa usa o Adobe Lightroom – “que é ótimo para escolha e edição rápida e massiva de fotografias” – e também o Photoshop. A Moda é muitas vezes sinónimo de perfeição e é impensável trabalhar para revistas e editoriais de moda sem efetuar qualquer edição… “nem que seja um simples ajuste de contraste”.

E nestas coisas há que passar o mais despercebido possível: “O segredo da edição está em não se saber onde ela está. O tempo das peles sem textura já passou. Sem entrar em grandes polémicas entre conservadores e liberais da edição de imagem, considero que para tudo há bom senso. E este é que deve pesar em cada fotografia”.

Pois, o bom senso é uma daquelas coisas que dá jeito em qualquer profissão. Isso e a paciência. Ora, a Carla reconhece ser essa uma das suas lacunas: “O meu ponto fraco talvez seja a impulsividade, deveria ser muito mais metódica”. Ponto fraco não diríamos… vá lá, ponto menos forte. Assim fica melhor.

Canon 7D . 135 mm . f/8.0 . 1/120″ . ISO 200
Canon 7D . 85 mm . f/8.0 . 1/120″ . ISO 200

Até porque, na dose certa, a impulsividade até pode ser uma vantagem. Ajuda a criar um estilo próprio. Olha, nem de propósito, aí está uma boa maneira de acabar a entrevista: como é que define o seu estilo?
“Ainda me encontro em processo de descoberta e de definição de uma identidade ou estilo fotográfico. No entanto, considero que a minha fotografia é bastante feminina e, de uma forma geral, simples”.

É difícil escolher a fotografia favorita, todas são especiais. A nível de autor, gosto muito do processo que “Deep river of sorrows” envolveu. Inicialmente, o conceito formou-se a partir da expressão “saw you drown” e da ideia de resignação, presente na música de Katatonia que a intitula.

Depois foi fácil: contactei a modelo (Anaísa) e a maquilhadora (Teresa Barrosão), agendámos um dia para realizar a sessão. E assim foi. A fotografia foi realizada numa banheira, com água morna, e sobre esta e a modelo colocado um vidro. A água morna permitiu criar o efeito de condensação que se observa na imagem.

Canon 350d . 50 mm . f/2.8 . 1/250″ . ISO 400 – “Deep river of sorrows”

A iluminação foi conseguida através do uso de uma fonte de luz contínua, projetada lateralmente pouco acima do nível da modelo, com um difusor caseiro pela frente (um pano).

Costumo personalizar bastante os parâmetros em que fotografo. Neste caso, “puxei” pelos azuis e aumentei o contraste. A nível técnico fotografei com a Canon EOS 350d, com a objetiva Canon 50mm a 2.8, 1/250 e ISO 400.

Por fim, a edição centrou-se essencialmente na limpeza de pele, ajuste de contraste, tons (a tender para os frios, para acentuar a transmissão de tristeza e resignação) e saturação. Devo ter demorado entre 30 a 40 minutos por cada fotografia dessa série.

Equipamento:
Canon EOS 7D
Canon EOS 350D
Canon EF 50mm f/1.4 USM
Canon EF-S 18-55mm 1:3.5-5.6 IS
Canon EF-S 18-135mm f/3.5-5.6 IS
Sigma EF-430 Super
Tripé
Refletores

(Artigo publicado da Revista ZOOM Edição nº 9)

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