“A fotografia ideal é aquela que me agarra”

 

Fotojornalista do Público e professor de fotografia, Adriano Miranda é um fotógrafo de pessoas que só se sente bem a fotografar no meio delas. Admite que valoriza mais a estética do que a técnica. E diz que nunca pensou em ser fotógrafo. Ah, e deixa um conselho: nunca apaguem nada!

 

zOOm: Todas as entrevistas a fotógrafos começam com a mesma pergunta. E esta não vai ser excepção: como surgiu a sua paixão pela fotografia?

Adriano Miranda: Eu estudei na Cooperativa Árvore, no Porto. E depois, como queria ir para Lisboa, um professor meu recomendou-me o Ar.Co. Mas eu não queria ser fotógrafo, queria ser escultor porque era apaixonado pela escultura. Como a carga horária de escultura não era assim muito preenchida e eu tinha tempo livre, inscrevi-me ao mesmo tempo em fotografia. Passado um mês ou dois deixei a escultura e dediquei-me à fotografia. Foi assim que nasceu o bichinho.

zOOm: Mas, antes do curso, não havia ali nenhuma propensão? Nada que o puxasse para a fotografia?

Adriano Miranda: Não. Fotografava em casa, a família. Mas não tinha assim nenhuma paixão pela fotografia. Nada que me levasse a pensar que um dia seria fotógrafo.

zOOm: Mas se fotografava em casa, é porque havia equipamento para isso. Então diga lá qual foi a sua primeira câmara?

Adriano Miranda: Foi uma Kodak “Baratinha”. Era miúdo e juntei mil escudos para a comprar. Era um rectângulo em plástico, com uns filmes que acho que já nem se fabricam. Foi com ela que tirei a minha primeira fotografia. Juntei a minha mãe e a minha tia Maria e cortei-lhes a cabeça.

zOOm: Mas tudo mudou com o curso no Ar.Co?

Adriano Miranda: Tirei o curso avançado e convidaram a ficar lá a dar aulas. E assim foi. Dava aulas, fazia os meus trabalhos de autor e não tinha intenção nenhuma de ir para o fotojornalismo. Até que um dia… lá está, são as tais coincidências. Eu costumava almoçar todos os dias no Ar.Co, mas um dia fui almoçar à Baixa e cruzei-me com um grande amigo meu, que é hoje fotógrafo oficial da Presidência da República – o Luís Filipe Catarino – que me falou de uma vaga no Público. Liguei com o editor Luís Vasconcelos, mostrei o meu portefólio e passado uns meses estava lá a trabalhar. Eu nunca pensei ser fotógrafo e depois fui. Nunca pensei ser fotojornalista e agora sou.

zOOm: Mas, para além da actividade jornalística, manteve a sua ligação ao ensino da fotografia?

Adriano Miranda: Sim. Dei aulas no Ar.Co até há 5 anos. Também dei formação no Cenjor. E hoje dou aulas no Instituto Politécnico do Porto.

zOOm: Ora, enquanto professor, qual é para si lado técnico mais difícil de ensinar?

Adriano Miranda: Quando estava no Ar.Co dizia sempre isto aos alunos: vocês façam as fotografias que quiserem, mas não quero a fotografia da velhinha de Alfama com o gato à janela. Para isso já temos muitos calendários com essas e outras “velhinhas”.

Eu na fotografia valorizo muito pouco a técnica e valorizo muito a estética. Há uma frase que foi dita por um colega meu, que foi meu professor, e que nunca mais me esquece: “há excelentes fotografias desfocadas e péssimas fotografias focadas”.

Essa frase foi sempre o ponto de partida para o meu trabalho e para o que ensino nas minhas modestas aulas. Previno sempre os alunos para o facto de, muitas vezes, eles me fazerem uma pergunta técnica sobre uma máquina e a minha resposta ser: “Olha, não sei. Vou tentar informar-me mas também te dou um conselho… pega no manual e lê!”.

É lógico que cá dentro de mim há muita técnica fotográfica. Aprendi. E isto depois é como andar de bicicleta: nunca mais se esquece. Ou, então, como conduzir: ao fim de um tempo a gente não precisa de olhar para o pé da embraiagem.

Mas não sou uma pessoa agarrada à técnica. Sou uma pessoa mais agarrada à estética da imagem. E acho que isso é muito importante.

zOOm: O que é para si a fotografia ideal?

Adriano Miranda: A fotografia ideal é aquela que me agarra! Pode estar tremida, pode estar desfocada, pode ter muito grão. Pode estar torta, direita, ser quadrada, rectangular… mas desde que me agarre a ela. Desde que eu olhe e fique ali parado, para mim essa fotografia tem um grande valor estético.

Nas aulas, quando os alunos têm que mostrar trabalho, eu fico muito contente quando olho para as fotografias deles e penso para mim: “adorava ter sido eu a fazer esta fotografia”.

Nas férias estive no campo de concentração de Auschwitz e há lá uma zona para onde os nazis levavam as mulheres e crianças. Um bosque lindíssimo.
Quando lá chegavam despiam as pessoas, elas eram fuziladas e estavam presos a queimar os corpos. Mas, uma vez, um preso levou uma máquina fotográfica escondida e conseguiu tirar duas ou três fotografias. Muito mal, muito tremido. Mas aquelas fotografias hoje em dia documentam aquela altura. Mostram a realidade.

E, muitas vezes, não podemos estar com essa preocupação de que a fotografia não presta, porque está tremida. Ou enquadramento ficou torto. Ou a linha do horizonte não está direita. Esqueçam!

Eu costumo dizer que nós não podemos ser escravos da máquina fotográfica. A máquina é que tem de ser a nossa escrava. E nós fazemos o que queremos com ela. Aquilo tem muitas funções e podemos usar essas funções ou não. Conforme o trabalho que nós queiramos desenvolver.

zOOm: E por falar em coisas difíceis, qual é o seu calcanhar de Aquiles? Aquele aspecto técnico que não domina tão bem como os outros? E o que faz para o contrariar?

Adriano Miranda: O meu calcanhar de Aquiles não é nada de técnico. Não sei porquê, mas está a aumentar com a idade. Devia ser ao contrário. Mas é uma questão de timidez. No trabalho que desenvolvo no jornal começa a ser preocupante, porque nós temos que lidar com as pessoas. Quem conhece o meu passado fotográfico – que tem quase 20 anos – sabe que gosto de encarar as pessoas. O que eu mais gosto de fazer é estar lá no meio, às vezes até quase a intimidar ou a provocar as pessoas. No fotojornalismo muitas vezes temos de estar em frente às pessoas. E noto que sinto alguma reserva e alguma timidez. E, sinceramente, eu acho que neste momento é o meu calcanhar de Aquiles.

zOOm: Mudando de assunto… para si a edição da imagem é um mal necessário? Ou um complemento indispensável para uma boa fotografia?

Adriano Miranda: A edição de imagem é um completo necessário para a boa fotografia. Aliás, a fotografia desde que nasceu até aos dias de hoje tem vindo sempre a evoluir. Tem vindo sempre a encontrar outros caminhos alternativos, outros formatos, outros suportes…

Por exemplo, quando apareceu a Kodak foi uma revolução. No início a fotografia era para uma elite. Mas depois, a Kodak quase que nos veio dizer “olhe, você fotografe que nós tratamos do resto”. E a verdade é que hoje em dia quase toda a gente tem uma máquina fotográfica no bolso: no telemóvel.

O Photoshop não trouxe nada de novo à fotografia. A única coisa de novo é o suporte. É nós não sujarmos sequer as mãos com os líquidos. Porque tudo o que lá está partiu e é trabalho de laboratório.

Eu costumo dizer que as pessoas que andam a estudar fotografia devem sempre tirar uma formação em laboratório. É extremamente útil para depois usarem as ferramentas do Photoshop.

Para nós fotojornalistas o Photoshop foi uma grande evolução porque quando chegávamos à redacção ainda tínhamos que revelar os filmes. Portanto, o tempo até vermos a imagem era muito longo. Agora temos logo a imagem pronta.

Mas atenção. Manipular a imagem em laboratório não é a mesma coisa que adulterar a imagem. Os grãos, as zonas sombra, os contrastes, tudo isso já era feito no laboratório. Hoje faz-se com mais facilidade no Photoshop.

É lógico que tudo isto se democratizou. O acesso ao laboratório era restrito. Era para quem tinha dinheiro. Agora qualquer um pode fazê-lo.

zOOm: Então quer dizer que o Adriano Miranda não é um “puritano”? A fotografia não sai directamente da câmara para o destino final?

Adriano Miranda: Uso o Photoshop e o Lightroom. E dou sempre um toque. Aliás, eu tenho outra visão: nós somos o fotógrafo desde o princípio até ao fim. Somos o fotógrafo quando captamos a imagem, mas somos o fotógrafo também quando estamos no laboratório.

Vamos esquecer se é digital, se é com “revelação-paragem-fixação”. Até termos a imagem impressa nós somos o autor dessa imagem. E eu posso contrastar mais a imagem, posso abrir mais a zona das sombras, posso escurecer mais a zona das sombras. Tudo depende da minha maneira de ver aquelas imagens.

Não sou daquelas pessoas que pensam: a fotografia é como sai da máquina. Não é! Não pode ser. Só o Ansell Adams é que fazia, porque fazia o sistema de zonas. Duvido que haja alguém que o use. E se calhar 99 por cento das pessoas nem sabe o que é.

E isto chama-se manipulação da imagem. Não é adulteração da imagem.

zOOm: Então e como se encaixa o fotojornalista nesse conflito “manipulação vs adulteração”?

Adriano Miranda: No fotojornalismo há regras. Se eu sou fotógrafo de um jornal isso é muito diferente de ser um publicitário. Ainda há pouco tempo estive numa formação de Photoshop onde nos ensinaram muitos truques mas que não são aplicáveis ao jornalismo.

Por exemplo, se estou a fotografar o Passos Coelho e reparo que há um poste que lhe sai da cabeça e não fica bem na fotografia eu não posso pensar “ah depois eu tiro isso no Photoshop”. O que eu tenho é de ter cuidado no momento de tirar a fotografia. Deslocar-me mais para frente, mais para trás, mais para esquerda, mais para a direita. Não posso tirar o poste depois. Estamos a falar de fotojornalismo.

zOOm: Quando se fala em Adriano Miranda, há dois trabalhos que nos invadem logo a retina. O projecto de Cabanelas e a reportagem em Timor, que deu origem ao livro. Comecemos por Cabanelas…

Adriano Miranda: Cabanelas foi um trabalho que fiz quando estava no último ano do Ar.Co. Fui lá várias vezes – é uma pequena localidade, no concelho de Vale de Cambra – e fiz um trabalho sobre a escola, que tinha 11 alunos e uma professora.

Fotografei os miúdos e fotografei a aldeia. Os avós, os tios, os irmãos. Foi o meu projecto de final do curso e esteve exposto na exposição de fim de curso. Depois o projecto ficou na gaveta mas quando vinha cá acima a Aveiro [nessa altura morava em Lisboa] eu ia sempre ver a escola. Fechou passado 3 ou 4 anos do meu projecto e ainda hoje está abandonada.

Mas sempre tive a vontade de voltar a fotografar as crianças. E houve uma altura em que eu pus um post no meu blogue [http://400asas.wordpress.com] sobre Educação – quando a Educação estava a “ferver”, no tempo da Maria de Lurdes Rodrigues – e foi curioso porque coloquei fotografias dessa altura, de Cabanelas.

E, passado uns dois ou três minutos, recebo um mail da Andreia Vale, jornalista da SIC, a propor o trabalho: voltar à aldeia e fotografar. Demorou algum tempo a encontrar as crianças, que hoje são adultos. Mas lá conseguimos. E nasceu uma reportagem que passou há uns meses nos Perdidos e Achados – da SIC – chamada “Os meninos de Cabanelas” [http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=256fb8d2-e611-4931-bec0-605967d0264b] e que resultou muito bem.

zOOm: Não resisto a pedir-lhe para contar a história do “Jorge Tadeu”.

Adriano Miranda: Era uma zona extremamente pobre. E único motivo de alegria das crianças era a escola. Se a professora faltasse eles choravam, porque se não estivessem na escola tinham de ir trabalhar para o campo.

Combinei com a professora e ela avisou os alunos que no dia tal vinha um fotógrafo e disse-lhes para virem mais bem vestidos. Muitos até traziam a roupa da primeira comunhão. Quando a professora me contou isso eu disse que se era assim não ia, porque eu queria era apanhá-los naturalmente, como eles eram no dia-a-dia.

Foi curioso, porque eu depois disse que não ia e eles ficaram todos tristes. E na altura andava a dar uma telenovela onde havia um fotógrafo chamado Jorge Tadeu. As mulheres comiam flores para ele aparecer à noite. E os miúdos passaram a semana a comer umas florzitas amarelas para ver se eu aparecia. Passado uma semana lá apareci eu e o milagre cumpriu-se. [risos… muitos]

zOOm: E Timor?

Adriano Miranda: O trabalho de Timor foi feito já eu estava no Público. Fui lá em 2000, a acompanhar a visita do Jorge Sampaio, e depois fiquei lá um mês, com o meu colega Luciano Alvarez [jornalista do Púbico]. Para mim foi um trabalho muito gratificante por outro motivo: é que parte da minha família, incluindo o meu pai, é timorense.

É uma história que dava um filme: nos anos 30 o meu avô foi deportado pela PIDE para Timor, juntamente com o Mário Carrascalão. Lá morreu na segunda guerra mundial, com a invasão japonesa, e a família perdeu-se toda.

Em 2000 consegui reencontrar parte da família em Timor. E depois publiquei aquele livro pela Assírio e Alvim. Aliás, temos que separar o trabalho que fiz para a editora, do trabalho que fiz para o Público. Eu nos meus projectos de autor nunca uso o material do jornal.

Até porque foi diferente do que faço para o jornal: foi tudo à base de retratos e paisagem. Levei a Mamiya 7 (a película) e eu só fotografava quando tinha tempo livre. Andava por lá, falava com as pessoas, pedia-lhes para fazer o retrato e eram retratos assumidos. Diferente do trabalho que estava a fazer para o jornal.

zOOm: O retrato é uma das suas paixões, não é?

Adriano Miranda: Gosto de retrato, apesar de achar que não tenho jeito nenhum. Cabanelas também foi baseado em retrato. Gosto sobretudo do retrato em “seis seis”. O 35 mm atrapalha um bocado.

Foi tudo analógico. Aliás, só em 2004 é que eu passei a trabalhar em digital, quando o Público abandonou o analógico. Gosto de analógico. Nunca mais trabalhei, mas tenho saudades. Lá está. O digital é viciante pela rapidez, pela limpeza. Já para não falar na qualidade.

zOOm: O fotojornalismo é, em boa parte, a arte de captar o instante, ou o inesperado da situação. É necessário ter dedo rápido e mais alguma coisa… quais as características de um bom repórter fotográfico?

Adriano Miranda: Primeiro: estar informado. De tudo. Há os que gostam mais de política, outros de futebol, etc. Quando vai para o terreno, o fotojornalista tem de saber o que vai fazer, tem de estar informado. Outro aspecto muito importante é a atenção. Tem de estar sempre atento. Sempre! Não pode estar distraído. Tem de estar atento aos sinais. Pode apanhar secas monumentais mas não pode cair na asneira de dizer “vou dar uma volta”. Enquanto vai acontece qualquer coisa. Seja a seca que for, sejam horas, sejam minutos, sejam segundos, tem de aguentar à bronca.

E depois, há a rapidez. Quando as coisas acontecem de repente, tipo numa campanha eleitoral, onde anda tudo aos pontapés. Há que ser rápido, ser astuto e pensar numa coisa: muitas vezes a boa fotografia não é feita onde está o “rebanho”. Às vezes faz-se é fora dele.

E, depois, a imaginação: puxar pela imaginação para ter uma imagem criativa. Há colegas meus que põem a informação à frente e a estética atrás. Eu faço ao contrário: a estética à frente e a informação atrás.

zOOm: Fotógrafo que se preze orgulha-se das suas influências. Quais são as suas?

Adriano Miranda: Tenho imensos livros, vejo imensas exposições. E houve um fotógrafo que ajudou a abandonar a escultura e a dedicar-me à fotografia, que é o Sebastião Salgado. É muito controverso entre os fotojornalistas, mas para mim é um dos expoentes máximos da fotografia. Acho que ele tem tudo: a questão estética, a questão humana, a questão da impressão. Foi um fotógrafo que me influenciou.

Principalmente no trabalho em que fiquei mesmo conhecido que foi um trabalho que eu fiz nas minas do Pejão. Umas minas de carvão, em Castelo de Paiva, que fecharam no tempo em que o Cavaco Silva era primeiro-ministro e eu, sem querer, fiz o maior levantamento fotográfico de minas que há em Portugal.

Um trabalho que foi exposto pela Europa toda e foi conhecido até no Ar.Co. E esse trabalho bebeu muita influência do Sebastião Salgado. Foi feito quando estava ainda a estudar o Ar.Co.

zOOm: E foi nas Minas do Pejão que fez uma das suas fotografias mais marcantes, certo?

Adriano Miranda: No primeiro dia em que lá fui, depois de fazer a visita toda, passei no balneário onde estavam 400 homens. Não havia armários, a roupa estava toda pendurada no ar, incluindo as botas. Fotografei um deles. E não sei até hoje como é que consegui aquela fotografia. Não sei como, mas naquela fotografia e naquele espaço eu consegui eliminar 399 homens e ficar só com aquele. E foi essa fotografia que me marcou. Foi a minha rampa de lançamento. Foi tirada em analógico sempre em negativo integral. Em laboratório, como a alta luz nos vidros era mais forte, manipulei a mesma.”

zOOm: Falamos de fotojornalismo e lembramo-nos de uma data de repórteres, todos apertadinhos, a acotovelarem-se uns aos outros, no meio de uma brutal confusão de cabos, câmaras de TV, microfones. Imagino que no meio desse caos seja preciso alguma… leveza. Que equipamento/acessórios costuma transportar?

Adriano Miranda: Ando sempre o mais leve possível. Para já a coluna está toda torta! Os fotógrafos devem ser os profissionais que têm mais hérnias discais. E eu quero ver se evito ter uma. Há colegas meus que andam com uma 17-35mm, um corpo, uma 70-200mm, são capazes de ainda andar com uma 300mm ou de andar com um escadote. Tudo tem a ver com o sítio para onde trabalhamos.

Mas eu geralmente ando sempre só com um corpo, com a 70-200mm no saco e com uma 17-35mm, tudo da Canon. Depois tenho uma 100mm de que gosto muito. Tenho uma 75mm… gosto muito de fazer retratos com ela. Comecei agora a comprar objectivas fixas que têm mais qualidade do que as zoom. Também tenho uma 50mm.

Tudo depende do trabalho que vou fazer. A última vez que andei com dois corpos foi na visita do Papa, aqui ao Porto. E ainda bem que levei porque às vezes estar a trocar de lentes demora. E ao trocar perdem-se coisas. Mas geralmente não ando muito carregado.

zOOm: E cartões. Toneladas deles, imagino…

Adriano Miranda: Eu sou daquela escola em que filmes nunca podiam faltar. E agora, cartões nunca podem faltar. Até porque há uma regra número 1 no jornal: não apagamos nada. É proibido apagar! Mesmo que fotografes os pés sem querer, não apagamos. Aqui é tudo guardado. Aliás, eu sou contra o botão delete nas máquinas. Devia ser abolido porque acho que as pessoas têm uma tendência para estar sempre a ver. E enquanto as pessoas estão a ver, das duas, uma: ou perdem alguma coisa, ou depois, ao ver, apagam. E apagar é mau. Apagamos uma fotografia que parece que não é boa, mas chegamos à redacção e o editor pode dizer que é excelente. Ou, daqui a 10, 20 ou 50 anos pode ser uma fotografia excelente.

Há bocado falei do preso de Auschwitz… agora imaginemos que ele tinha uma máquina digital e apagava? Nós não tínhamos o testemunho. Ao apagar, estamos a apagar a memória fotográfica e a memória fotográfica colectiva ou individual é extraordinariamente importante. Graças a Deus que na 1.ª Guerra Mundial, na 2.ª Guerra Mundial, na Guerra do Vietname, no fascismo em Portugal e outras mais não havia máquinas digitais. Se não o grande espólio não existia e os historiadores não o teriam para escrever a história. E isso passa-nos completamente ao lado.

Se eu apago uma fotografia, daqui a 10 ou 20 anos ninguém a vai ver. Perde-se a memória individual e colectiva. Há a ideia de que o fotojornalista trabalha para o imediato. Hoje leio o jornal, amanhã ele está a embrulhar castanhas ou limpar vidros. Mas eu não penso assim. A fotografia que sai amanhã no jornal gosto de a preservar. E daqui a 10, 20 ou 40 anos, se alguém cuidar do meu espólio, ela há-de servir para alguma coisa.

No início da fotografia um dos dilemas foi a fixação da imagem. Hoje em dia já não. O dilema é o suporte onde estamos a guardar as imagens.

zOOm: Já que estamos com a mão na massa – ou melhor, dentro do saco – qual é elemento mais importante do seu arsenal?

Adriano Miranda: O elemento preferido do meu arsenal é a Canon 5D. E analógico é a Nikon SMN 2. Ainda tenho a “baratinha”. A Mamiya 7 Ns. Mas ainda vendi 2 ou 3 máquinas quando foi a transição para o digital.

zOOm: Quando não é fotojornalista, o que é que mais gosta de fotografar?

Adriano Miranda: Deixei de fazer coisas para mim, com muita pena minha. Mas tenho de fazer. Ando a começar a ter vontade de fazer. Eu acho que o fotojornalismo em Portugal é uma profissão que “mata” os fotógrafos. Esgota-os. Espreme-os até ao tutano.

Oitenta por cento do trabalho que nós fazemos não presta. E o fotojornalismo é uma profissão muito romântica. Nas escolas toda a gente pensa no Robert Capa e outros mas depois chegam à realidade e não é nada disso. Temos os Sócrates, os Passos Coelho, as Assembleias da República, entrevistas, crimes, futebol…

Há excelentes fotógrafos em Portugal, mas por estarem tantos anos dedicados ao fotojornalismo começaram a andar para trás. E o trabalho de autor é uma das formas de compensar isso.

zOOm: Cor ou preto-e-branco? E porquê?

Adriano Miranda: Costumo levar às minhas aulas fotógrafos e há tempos levei o Nelson d’Aires que ganhou agora o prémio Mora. Ele tinha um trabalho muito bonito. E os colegas queriam aquele trabalho a cores. Porque diziam que o vermelho era lindo, que o verde era bonito e não sei quê.

E ele disse: “Não é isso que me interessa. Eu quero é ver a imagem no todo. E ao transformar aquelas imagens a preto-e-branco, os elementos ficaram agarrados à imagem na mesma. A imagem vale pela sua composição estética e não vale pela cor que tem. A cor muitas vezes funciona como ruído, como elemento de distracção.

zOOm: Cidade? Montanha? Campo? Praia? Onde é que está mais à vontade para fotografar?

Adriano Miranda: Apesar da timidez, o lugar ideal para fotografar é no meio das pessoas. E nas pessoas mais castigadas da nossa sociedade. No meio dos pobres e dos espoliados. É aí que eu gosto mais de estar. Não para os explorar visualmente, mas para os ajudar.

zOOm: Chegamos finalmente à parte do episódio divertido? Enfim, todos os fotógrafos viveram uma história invulgar, no cumprimento do dever. No seu caso, por exemplo, estou a lembrar-me de uma foto fabulosa de um conjunto de padres e lerem um jornal desportivo com… Jesus na capa.

Adriano Miranda: Estava a fazer a reportagem da visita do Papa, ao Porto. Ele ainda não tinha chegado. E eu estava a olhar… ando sempre a olhar. Fixo muito os olhos nas pessoas e estou a ver fotografias. E nesse caso foi isso que aconteceu. Olhei, vi aqueles padres que estavam na primeira fila entretidíssimos a ler a bola. Apontei a máquina, eles olharam para mim a rir mas continuaram a ler. E foi a minha sorte, porque eles podiam ter fechado o jornal. Achei piada porque houve uma cumplicidade entre mim e eles. E eles aceitaram a brincadeira. Lá está, aquilo ali funciona como um trocadilho, mas o fundamental é o pormenor e a atenção.

Bio:
Adriano Miranda
Profissional
Idade: 45 anos
Profissão: Fotojornalista
Vive em Aveiro
http://400asas.wordpress.com

Equipamento:
Canon 5D (duas)
Objectivas 70-200mm, 17-35mm, 100mm macro, 50mm, 24mm
Flash… ok, era a brincar. O Adriano NUNCA usa flash!

Mais fotos de Adriano Miranda na revista zOOm N.º 8!