“É um privilégio fotografar e contemplar a natureza”

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Mário Rui

Diz que a fotografia de paisagem “tem capacidades terapêuticas” e o seu trabalho reflete o esplendor da natureza. Mário Rui fotografa com paixão o mundo à nossa volta.

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Diz que a fotografia de paisagem “tem capacidades terapêuticas” e o seu trabalho reflete o esplendor da natureza. Mário Rui fotografa com paixão o mundo à nossa volta, ao ponto da sua imagem na lagoa glaciar de Jökulsárlón lhe ter valido o “Photo of the Year 2016” no site Olhares.com.

Nikon D7200 . 40mm . f/11 . 1″ . ISO 100 – “Frozen Day” (Photo of the Year 2016 – Olhares) – Glaciar Lagoon, Jökulsárlón, Islândia

Como é que tudo começou? Foi o Mário Rui quem descobriu a fotografia, ou foi ela que o descobriu a si?
Acho que foi mais a fotografia que me descobriu (risos). Não foi um amor à primeira vista, devo confessar. Eu andava pela área do vídeo e não ligava muito à fotografia, cruzava-me com ela e seguia o meu caminho sem lhe dedicar muita atenção. Há cerca de 3 anos comecei a olhar para a fotografia com outros olhos. Começou a desenvolver-se uma atração muito grande, a sentir espaço para a criatividade, para a arte. Fiquei apaixonado. Tanto que deixei definitivamente o vídeo para me dedicar exclusivamente à fotografia. O namoro é relativamente recente mas acho que vai acabar em casamento (risos).

Nikon D7200 . 11mm . f/11 . 1.6″ . ISO 100 – “The Colors of the Gods” – Seljalandsfoss, Islândia

Todos os fotógrafos têm uma primeira câmara que nunca esquecem. Qual foi a sua?
É verdade, acho que ninguém esquece a sua primeira câmara. A minha primeira, quase tenho pudor em contar isto, foi comprada à pressa numa grande superfície, na véspera de uma viagem à Lapónia. Foi uma Lumix FZ7, adorei-a. Na altura fazia apenas fotografia de turista, em automático, não fazia a mínima ideia para que serviam aqueles botões todos.

Nikon D7200 . 24mm . f/11 . 0.8″ . ISO 100 – “Hard Way” – Brúarfoss, Laugarvatn, Islândia

Montanha, ou paisagens costeiras? Qual a sua favorita?
Para mim natureza é natureza. Adoro igualmente o “landscape” e o “seascape”, mesmo quando me pregam partidas. É um privilégio fotografar e contemplar a natureza. Diria mesmo que a fotografia de paisagem tem capacidades terapêuticas. Claro que não há rosas sem espinhos, nem sempre é fácil fotografar paisagem, especialmente quando os deuses estão loucos e nos brindam com tempestades monumentais ou céus sem réstia de nuvens. Mas essas coisas fazem parte da vida de qualquer fotógrafo de paisagem, e ainda bem. Acho que não tinha tanto encanto se não houvesse esse fator de imprevisibilidade.

Nikon D7200 . 11mm . f/16 . 15″ . ISO 100 – “Nature Monumento” – Los Urros, Costa Quebrada, Cantaria, Espanha

Em 2016 foi distinguido com a “Photo of the Year 2016” no Olhares.com. Essa imagem ocupa um lugar de destaque na sua “galeria” pessoal?
Sim, foi uma completa surpresa para mim. Não estava à espera, por diversas razões. Primeiro, porque essa distinção nem sequer existia nos anos anteriores. Depois, eu tinha começado a fotografar em meados de 2015, era um caloiro, não tinha grande experiência nem portefólio digno desse nome. Nem sei descrever a minha reação quando soube, acho que fiquei incrédulo, assim tipo como se me tivesse saído o Euromilhões (risos).

Sobre a fotografia em causa (pausa)… é uma fotografia de que gosto. Sabe, acho que o spot que fotografei é que foi o grande vencedor. A lagoa glaciar de Jökulsárlón é um spot fantástico, só ao vivo temos a verdadeira noção de todo o seu esplendor. Ainda sobre a foto, é curioso, foi das poucas fotos que já a tinha imaginado na minha cabeça antes de a fazer, ainda por cima num spot que está em constante mutação e dificilmente podemos definir com rigor o que vamos fazer antecipadamente. Não sei se é a minha melhor fotografia, para lhe dizer a verdade também não sei qual é a minha melhor fotografia. A relação que tenho com as minhas fotografias é algo conflituosa, fico sempre com a sensação de que podia ter feito melhor.

Nikon D7200 . 40mm . f/11 . 1″ . ISO 100 – “Frozen Day” (Photo of the Year 2016 – Olhares) – Glaciar Lagoon, Jökulsárlón, Islândia

A edição de imagem é importante no seu trabalho?
A edição é importantíssima na “construção” de uma fotografia. É através da edição que podemos dar o nosso cunho pessoal, a nossa criatividade, em suma, o nosso gosto. Mas também pode ser uma tarefa desesperante e demorada. Acontece-me muitas vezes ter de “desligar” durante umas horas ou mesmo dias até voltar a pegar na mesma fotografia.

Os programas que utilizo são o Lightroom (LR), o Photoshop (PS) e o Nik Color Efex (Nik). Habitualmente abro os ficheiros RAW no LR onde faço a correção de lentes, removo as aberrações cromáticas e reduzo as altas luzes. Às vezes também corrijo o balanço de brancos, embora raramente. Depois passo a imagem para o PS, onde começa o Cabo das Tormentas (risos). Não… no PS + Nik é onde dou asas à criatividade, tentando respeitar alguns princípios, como por exemplo não enganar-me a mim próprio nem quem vai ver o trabalho. Falo de adulterações aos originais.

Nikon D7200 . 11mm . f/11 . 1/200″ . ISO 100 – “Solitude” – Di Braies Lake, Dolomites, Itália

O Mário é responsável por alguns tours fotográficos. Fale-nos um pouco dessa experiência que é, no fundo, uma importante partilha de conhecimento.
A primeira vez que fui à Islândia demorei 3 meses a preparar a viagem, foi tudo a partir do zero, em horário quase laboral e com o máximo de rigor e pormenor. Pensei que me tinha excedido no tempo demorado até que um dia li algures um comentário de um fotógrafo estrangeiro que também organiza photo tours, onde ele referia demorar 3 meses na preparação dos mesmos. Fiquei mais descansado (risos).

Nikon D7200 . 14mm . f/11 . 8″ . ISO 100 – “Almost Christmas” – Zaanse Shans, Holanda

A partir dessa experiência percebi que nem todas as pessoas têm disponibilidade de tempo para organizar a sua viagem fotográfica. Um photo tour de paisagem não é o mesmo que uma visita de cidade, onde os acessos são fáceis, estão sinalizados e toda a gente sabe onde ficam os spots de maior interesse.

Por estes motivos, decidi partilhar a minha experiência e conhecimentos através dos photo tours. Para além da comodidade de um programa criterioso que nos leva aos locais certos e no momento certo para assim se obterem os melhores resultados fotográficos, os participantes podem também beneficiar da presença de alguém que os pode ajudar nas mais diversas situações.

Nikon D7200 . 11mm . f/11 . 30″ . ISO 100 – “The Giant” – Lómagnúpur, Islândia

Qual o elemento fundamental da sua fotografia?
(Pausa)… Acho que é o esplendor da natureza. Pelo menos tento que o seja (risos).
Sabe, a natureza é algo que nos faz sentir pequeninos e insignificantes perante a sua beleza e o seu poder. Eu gostava de lhe ter respondido que o elemento fundamental nas minhas fotografias é a alma da natureza. Mas ainda não é e não sei se algum dia será. É esse o desafio que ofereço a mim próprio e que me vai estimular na sua procura.

Quem fotografa tem sempre uma mão cheia de aventuras para contar, até porque as peripécias são sempre uma parte importante do nosso portefólio. Partilhe connosco alguma dessas histórias inesquecíveis vividas atrás da câmara.

Nikon D7200 . 28mm . f/8 . 30″ . ISO 100 – “Golden Mountain” – Matterhorn (4.478 m) from Lake Stellisee (2.537 m), Zermatt, Suíça

Sim, é verdade. Tenho uma que foi épica mas infelizmente – ou felizmente – é inenarrável, para salvaguarda dos leitores da Zoom. Posso apenas adiantar que foi na Islândia, metia problemas intestinais, um autocarro de excursão cheio de chineses e mais umas coisas. Esta só dá mesmo para contar em privado, lamento.

Tirando essa, e das que se podem contar, tenho umas quantas mas vou partilhar apenas duas em que sou protagonista e em modo “trailer”. A primeira passou-se no lago Stellisee, em Zermatt, na Suíça. Foi em pleno inverno e o lago estava gelado. Estava com todo o cuidado em cima da placa de gelo a preparar a composição da imagem de forma a apanhar o icónico Matterhorn, quando a placa começa a quebrar e afundei rapidamente na água até à cintura. Não foi dramático, mas foi gélido.

Nikon D7200 . 11mm . f/11 . 30″ . ISO 100 – “Blue Mirror” – Vestrahorn, Stokksnes, Islândia

Por último, a caminho do lago di Landro, nos Dolomites, em Itália, apanhámos uma passagem muito estreita com alguns ramos de árvores a complicarem. Eu seguia à frente e estava a exemplificar como devíamos passar quando o ramo a que estava agarrado se partiu e caí dentro do lago. Mais uma vez, não foi dramático mas foi encharcado.

Se a sua câmara falasse, o que diria ela?
Boa pergunta, mas não faço ideia da resposta (risos). Acho que só poderia dizer bem da forma como a trato e cuido, como a levo a passear pela mão por sítios lindíssimos. Creio que temos uma relação romântica (risos).

Nikon D7200 . 11mm . f/11 . 1/20″ . ISO 100 – “Green Lake” – Karersee Lake, Bolzano, Dolomites, Itália

“The Enchanted Mill”
Podemos tomar como exemplo a “The Enchanted Mill”. Como boa parte das minhas fotografias, também esta foi pensada no recato do lar, sentado ao computador e com a ajuda do Google Street. Estudei assim o spot, vi os acessos, os ângulos possíveis, os prós e os contras, sem o stress de quando fazemos este trabalho no local.

Chegado ao spot, dei por bem empregue o tempo gasto no estudo prévio. Facilitou imenso toda a logística inerente à realização da fotografia.

Apesar de estar a chover, resolvi esperar um pouco, porque habitualmente depois da chuva há oportunidades de luz fantásticas e, até com sorte, podemos ser brindados com um arco-íris. Passada a chuva, compus rapidamente a imagem e aproveitei aquela luz magnifica de fim de tarde. Confirmei no LCD da máquina se estava tudo bem com a fotografia e fiquei a contemplar por mais alguns minutos aquele maravilhoso spot, até ao cair da noite.

Nikon D7200 . 12mm . f/11 . 30″ . ISO 100 – “The Enchanted Mill” – Kinderdijk (UNESCO World Heritage), Holanda

Passadas as fotografias para o computador, inicia-se o ritual da edição. Os passos básicos já descrevi na resposta sobre edição. Passamos assim diretamente para o PS+Nik. Aqui escureci ligeiramente o céu (os filtros ND Grad nem sempre resolvem tudo) e aclarei um pouco a água. Aumentei a saturação e dei um pouco de brilho. Provavelmente dei outros toques finais mas que sinceramente já não me recordo. Durante o processo de edição tento vários recursos disponibilizados pelos programas, consoante a evolução do trabalho. Alguns deles são depois revertidos, outros acrescentados.

Passadas algumas horas, ficou assim concluída mais uma fotografia que me deu imenso prazer fazer, tanto no local como a editar.

 

Equipamento:
Nikon D7200
Tokina 11-16mm f/2.8
Sigma 17-50mm f/2.8
Nikon 55-200mm f/4
Filtros ND Lee e Haida
Tripé Manfrotto 190XPRO3
Mochila Lowepro Flipside 400
Bolsa porta-filtros Terrascape

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