Índia, um lugar para sentir pessoas e ambientes

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Helder Costa Real

Natural do Porto, Portugal. Fotógrafo autodidacta, dedicado, com amor e paixão pela fotografia. Com uma variedade de estilos, desde moda, para foto-jornalismo, espontâneos, retratos, etc. Com modelos completamente diferentes uns dos outros, tenta captar a personalidade, essência e alma de cada pessoa que fotografa, não apenas a sua imagem e passar algum tipo de mensagem/história em cada foto.

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Tudo começou com um convite para viajar. Destino? Índia! Bom, eu aceitei obviamente. Não iria perder a oportunidade única de contactar, sentir, perceber, ver, aquela realidade. A viagem foi feita da forma mais económica possível: levar o essencial, saco com roupa básica apenas, estojo de primeiros socorros e, de resto, só material fotográfico. Afinal o espírito foi mesmo esse: ir e fotografar.

Mas antes da viagem há que verificar se as vacinas estão em dia, tomar as mais necessárias medidas na consulta do viajante para ir em segurança para uma zona pobre, suja, sem higiene e com muitas doenças daí provenientes, quente, muito quente e ao mesmo tempo húmida e poluída ambientalmente.

Segui a rota Porto-Londres, Londres-Índia e, uma vez lá chegado, o sentimento foi estranho. Um clima muito abafado, militares armados com metralhadoras nos aeroportos de Delhi e Kolkata. Logo deu para perceber que estávamos numa filosofia diferente de estar e viver.

Nikon D700 . 50mm . f/2.2 . 1/80″ . ISO 800
Nikon D700 . 50mm . f/2.8 . 1/1000″ . ISO 320

Aterrando em Kolkata e já no átrio de saída do aeroporto tentamos encontrar um local para ficar. É engraçado reparar que existe uma corrida, quase uma caça ao homem, para tentar arranjar clientes para pensões e hotéis. O local de alojamento não era muito longe (de carro) do aeroporto. Situava-se na zona velha de Kolkata, a parte mais histórica e antiga da cidade onde a conhecida Madre Teresa de Calcutá nasceu.

É uma cidade muito velha, pobre, suja. Praticamente não existem passeios e quando os há estão partidos, despedaçados. Existem lixeiras públicas a céu aberto praticamente de quilómetro a quilómetro. Só que em vez de gaivotas, como temos em Portugal, sobrevoam corvos por todo o lado esperando um animal morto ou lixo nas ruas.

Nikon D700 . 35mm . f/2.0 . 1/125″ . ISO 2000
Nikon D700 . 35mm . f/2.0 . 1/400″ . ISO 200

A pensão tinha como principais funcionários crianças ou idosos. Dava pena, crianças de 13 ou 15 anos, por volta disso, a trabalharem que nem gente grande aqui trabalha. Mudam quartos, limpam o chão, casas de banho, tudo sem luvas, sem espanadores, sem auxílio de nada. Apenas descalços e de joelhos no chão a esfregar.

Fotograficamente, posso dizer que, desde o momento em que saímos do aeroporto, só encontramos bons motivo para fotografar. Aquilo que anteriormente descrevi, mesmo a vida que era feita na pensão pelas crianças que lá trabalham, tudo foi fotografada. O próprio quotidiano das pessoas na rua era inspirador de boas fotos: elas a movimentarem-se, crianças a irem para a escola, outras da mesma idade a trabalhar, pessoas nos seus ofícios…

Nikon D700 . 70mm . f/2.8 . 1/250″ . ISO 320
Nikon D700 . 24mm . f/2.8 . 1/40″ . ISO 6400

Nunca nos pediram dinheiro para fotografar nada e sempre aceitaram ser fotografados. Claro que, por uma questão de respeito, antes é melhor pedir gentilmente permissão e nunca insistir se eles não quiserem. O inglês serve para a comunicação mas não totalmente. No entanto, a comunicação não é muito difícil quando queremos apenas obter imagens e somos turistas ou estrangeiros.

Pessoalmente, ao andar pela cidade e conhecer as pessoas e ver como trabalhavam e viviam ajudou-me a fotografar. Sentir o que se faz dá para perceber até que ponto queremos fazer retratos com umas pessoas ou então fotos de maior amplitude com outras.

Nikon D700 . 50mm . f/1.4 . 1/125″ . ISO 640
Nikon D700 . 44mm . f/2.8 . 1/320″ . ISO 400

Claro que o equipamento também ajuda. No meu caso, uso material profissional: uma full-frame e objetivas topo de gama. Em retratos adoro usar aberturas de f/2.8 no máximo, mas retrato puro e duro é mais f/2 a 50mm ou a 35mm, focagens muito agradáveis para se fazer este tipo de retrato mais próximo. A 105mm f/2.8 também permitiu fazer retratos mais longínquos, dando-me a possibilidade de chegar a sítios que não davam para uma maior aproximação.

Um dos dias mais marcantes, sem dúvida, foi a ida ao mercado onde se vendia tudo para alimentação: carne, peixe, cereais. Engraçado ver o colorido de cores, mas ao mesmo tempo a miséria. Homens a matar galinhas e vendê-las na hora, esventrando-as ao gosto de quem as comprava, gente a abrir e preparar o peixe…

Nikon D700 . 50mm . f/2.0 . 1/200″ . ISO 800
Nikon D700 . 50mm . f/2.0 . 1/400″ . ISO 800

Tudo isto dava grandes fotografias de pessoas como retrato, mas também fotografias que retratam as suas profissões, com um ambiente fantástico à volta, com uma luz muito difícil. Mas uma máquina com um ISO alto e límpido é uma grande ajuda e objetivas boas com grandes aberturas também.

Outra visita marcante foi aos bairros. Um, junto ao rio Ganges, onde pude ver como vivem as pessoas pelas margens, no meio do lixo e restos de coisas variadas. Crianças a tomarem banho, mesmo a defecarem para o rio na sua inocência, velhos a dormir ou a jogar os seus jogos típicos.

Nikon D700 . 24mm . f/2.8 . 1/320″ . ISO 1250
Nikon D700 . 70mm . f/2.8 . 1/100″ . ISO 1600

Ou ver o local onde se realizavam as cerimónias fúnebres. Consegui falar com uma família e fotografá-la com o seu falecido, momentos antes de ele ser cremado ao ar livre pela própria família, que era pobre e não poderia pagar a cremação nas câmaras de fogo.

Nikon D700 . 42mm . f/2.8 . 1/1600″ . ISO 500

Visitei também um grande bairro cheio de pessoas, crianças às dezenas a correrem para nós, pessoas que viviam do lixo, mas literalmente em cima do lixo! Pilhas e pilhas de sacos de lixo no chão, ao andar era impossível não deixar de pisar variadíssimas coisas. E sempre com dezenas de crianças à volta a agarrarem-se e a pedirem fotos, pois ficavam fascinados ao ver-se na câmara. Tecnicamente, o melhor é ter uma objetiva com zoom para a versatilidade e uma – muito boa – fixa de 50mm ou 35mm.

Não esquecer de uma 24-70mm f/2.4 ou algo do género para a polivalência. É que, por vezes, não temos tempo de reação para trocar de objetivas e ter uma grande angular como 24mm e passar rapidamente para 50mm ou 70mm ajudará de certo, embora as fixas tenham um “Sharp” e um “Dof” muito bom e apurado, se usarmos uma 50mm f/1.4 ou uma 35mm f/2.

Nikon D700 . 32mm . f/2.8 . 1/500″ . ISO 400
Nikon D700 . 31mm . f/2.8 . 1/400″ . ISO 400

Pessoalmente, acho que fotografia como esta – fotojornalismo – não deve levar edição manipulada, ou filtros. Apenas correção de enquadramentos, ou ajuste de uns contrastes para se realçar em alguns casos. Ah, é importante usar sempre a máquina no modo M (manual), escolher tons manualmente – sempre – para assim tirar partido da qualidade da máquina e objetivas.

De resto, a técnica poderá muito bem vir do analógico, pois a técnica manual que damos na velocidade de obturação mediante a abertura do diafragma que escolhemos, até as opções de tons no menu vai influenciar a fotografia e, claro, a objetiva!!! Eu aposto tudo nas objetivas! Uso só e apenas objetivas de grande qualidade ótica, pois acredito que o mais importante numa máquina é o sensor de imagem (nas digitais) ou o filme (nas analógicas) e a objetiva!

Nikon D700 . 56mm . f/2.8 . 1/320″ . ISO 400
Nikon D700 . 70mm . f/2.8 . 1/400″ . ISO 250

No meu ponto de vista autodidata a fotografia tem muito mais de sentimento, observação e até interação com as pessoas. Isto é mais importante do que ter bom material e depois não perceber o que estamos ali a fazer.

E isso tudo advém da “escola” que temos, seja ela autodidata ou não. Mas creio que a vontade de fazer algo tem muita força e acredito muito na paixão humana e no sentido de missão. Ir para este local e não falar com as pessoas, não as ouvir, não tentar perceber, não fará sentido. Nestes locais não podemos preocupar-nos só com a estética da fotografia senão não vamos perceber nada daquilo que acabamos de fazer.

Nikon D700 . 60mm . f/2.8 . 1/80″ . ISO 800

Sugiro a quem queira viajar para uma cidade ou país pobre como a Índia ou África, ou algo parecido, que tenha o cuidado de pesquisar bem e falar com as pessoas no local. Pedir autorização, tentar ajudar com alguma coisa para o bem dos mais próximos já que não podemos fazer grande coisa na realidade. Que sintam as pessoas e o ambiente em que estão inseridos e trabalhem mesmo muito a máquina em modo M (manual).

Em suma, para uma viagem destas é fundamental: um tripé ou monopé, câmara melhor possível, objetivas melhores possíveis, sentir o ambiente e tentar pensar o que queremos ou devemos ao mundo.

Nikon D700 . 105mm . f/3.0 . 1/200″ . ISO 1250

Equipamento:
Zenza Bronica ETRSI + 75mm f2.8
Nikon D700 + grip
Nikkor 50mm f1.4
Nikkor 105mm f2.8
Nikkor 27-70mm f2.8

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