Exposição à direita: o que é e como fazer?

Para sermos realistas, não existe “a” exposição perfeita. Esta depende do objetivo do fotógrafo, com aquilo que ele pretende transmitir com a fotografia. Mas isto não significa que se possa expôr de qualquer forma. Existem técnicas que deve ter em conta, no momento em que carrega no botão de disparo da câmara, para conseguir um tempo de exposição equilibrado, quase “perfeito”.

Uma delas é conhecida como Exposição à Direita e que consiste em formar a exposição para o lado direito do histograma. Saiba quase tudo neste artigo que preparámos para si. É daquelas coisas básicas que aprendemos assim que começamos a fotografar: a sobrexposição (ou tempo de exposição para lá do ideal) estraga qualquer fotografia.

Mas, e se lhe dissermos que, ainda que em doses moderadas, pode melhorar e muito a qualidade da sua fotografia?
Pois bem, estamos a falar da chamada Exposição à Direita, também designada de ETTR (Expose To The Right). Basicamente, consiste em forçar a exposição no momento de fazer a fotografia, de forma a que o ficheiro inclua uma maior quantidade de informação. E não esqueça que deverá fotografar usando o formato Raw.

Desse modo, apesar da imagem que vê no LCD da câmara não ser de todo a que melhor corresponde à realidade, acredite que o ficheiro produzido vai armazenar um maior volume de dados que lhe serão preciosos na hora de trabalhar a imagem no seu programa de edição.

A operação requer alguns cuidados e sensibilidade extra. O objetivo é forçar a exposição de forma a que o histograma seja empurrado para o lado direito. Mas convém não exagerar em demasia para evitar estoirar as altas luzes (ou, de uma forma simples, as zonas mais claras de uma imagem). Claro que pode pura e simplesmente confiar nos avanços tecnológicos, no domínio da fotografia, e deixar que o modo de exposição automático da sua câmara faça o trabalho todo por si.

Mas, convenhamos, o resultado nunca passará dos limites do aceitável. Se quiser subir a fasquia e começar a produzir fotografias que realmente deslumbrem e, ao mesmo tempo, tirem o máximo partido do equipamento, então prepare-se porque tem algum trabalho à sua frente. Obter uma exposição correta requer mais tempo e empenho no momento de fotografar. E, claro, algum conhecimento na fase da edição da imagem no computador.

Regra geral, a maneira mais fácil de expor à direita é fazer uma exposição de teste. Em seguida, é recomendável que reveja o histograma e, caso seja necessário, fotografe novamente usando a compensação de exposição apropriada. Um ponto a reter: a exposição à direita resulta bem com a maior parte dos casos. Contudo, a sua eficácia é maior em cenas que tenham um alcance dinâmico limitado, como por exemplo paisagens, onde a exposição pode ser “esticada”, principalmente nas altas luzes.

Como funciona?
Para compreendermos o modo de funcionamento da Exposição à Direita, convém perceber um pouco melhor as propriedades dos sensores digitais de imagem. De modo a conseguirmos obter transições de tom suaves numa imagem, é importante entendermos este princípio básico: quanto mais níveis de tom estiverem disponíveis, melhor será o resultado.

Uma imagem de 12 bits – que é o normal na maior parte das DSLR – tem disponíveis 4096 níveis. Contudo, eles não estão espalhados ao longo do alcance do sensor.  Na verdade, como os sensores são dispositivos lineares, metade dos níveis disponíveis estão contidos no “stop” mais brilhante e cada f/stop vai gravar metade dos níveis que sobram. Como resultado, o “stop” mais escuro contém apenas qualquer coisa como 128 níveis de brilho.

Isto quer dizer que se fizer a subexposição de uma fotografia e depois forçar a exposição e o brilho no momento de editar a imagem, o mais provável é que as transições de tom não sejam suaves e se registe alguma “posterização”. Ou seja, mudanças abruptas nos tons e nas sombras, comprometendo a qualidade final. No entanto, se fizer o contrário e expuser a foto de maneira a que a maior parte dos dados fiquem guardados nos stops mais brilhantes, conseguirá captar uma maior quantidade de informação tonal.

É claro que o seu ficheiro Raw precisará de ser processado corretamente, de modo a que consiga obter o máximo dele. Quando abrir o ficheiro pela primeira vez no seu software de conversão Raw tudo irá parecer branco demais e com alguma falta de contraste. Terá, por isso, algum trabalho à sua frente. Principalmente ao nível da exposição, brilho e contraste, que terão de ser trabalhados de modo a repartir os dados devidamente ao longo do histograma. A pouco e pouco a sua imagem irá adquirir o aspeto pretendido.

Claro que isso requer um pouco mais de tempo e esforço, mas o resultado final vai compensar, uma vez que a imagem irá apresentar maior informação das tonalidades e transições de tom mais suaves. A outra vantagem é que vamos obter uma imagem mas limpa, reduzindo substancialmente o ruído. Obviamente, nenhuma imagem digital está imune ao ruído, mesmo aquelas que são captadas com um baixo ISO.

Por norma, o ruído digital sobressai mais nas zonas de sombra. Mas, ao forçar a exposição em direcção às altas luzes (para a direita no histograma), consegue-se reduzir ao mínimo o tal ruído. À primeira vista, esta técnica parece algo contra-intuitiva. Nos primeiros anos da fotografia digital, os fotógrafos preocupavam-se essencialmente em proteger as altas luzes e, para o conseguir, procuravam encurtar o lado subexposto.

No entanto, quem já fotografava na era analógica preservou o hábito saudável de sobrexpor ligeiramente as imagens de forma a aumentar a saturação de cor, por exemplo. Convém abrir um parêntesis para salientar que um negativo a cores apresenta um resultado mais agradável quando é sobrexposto, pelo que a tendência era expôr para as sombras.

No digital isto soa a algo muito arriscado (e é), mas a latitude do filme é muito maior, pelo que perder detalhe nas altas luzes não era (é) motivo de preocupação. Assim, a transição para a fotografia digital permitiu à exposição à direita tornar-se numa das técnicas mais populares entre os fotógrafos.

“Expor para a Direita”, sempre?
Tal como todas as outras técnicas usadas na fotografia digital, a Exposição para a Direita tem as suas desvantagens, pelo que não será útil em todas as situações. O risco de usar esta técnica reside no facto de, ao forçar a imagem para níveis próximos da sobrexposição, poderá cometer um erro de cálculo e empurrá-la em demasia estoirando as altas luzes.

Ora, isso não constitui um problema quando fotografamos coisas estáticas, como paisagens, ou em ambientes de luz controlada, como por exemplo em estúdio. Nesses casos, temos a possibilidade de verificar o histograma e, se necessário, fotografar novamente. Mas quando não temos a oportunidade de rever a imagem e fotografar as vezes que forem necessárias, como é o caso da fotografia de rua, ou no desporto – ou basicamente, tudo aquilo que implique movimento – o que é recomendável é jogar à defesa.

Que é como quem diz, não arriscar uma exposição que pode estoirar as altas luzes, desperdiçando um momento irrepetível. Há determinadas situações nas quais, mesmo a fotografar paisagens, a exposição à direita deve ser evitada. Imagens com altas luzes muito brilhantes podem causar problemas. É o caso das condições climatéricas variáveis, ou de mudanças rápidas nas condições de luz. Circunstâncias que não lhe oferecem mais do que uns breves momentos para captar a imagem.

Ao vermos o aviso de altas luzes no LCD da nossa câmara (se tiver a função ativada, obviamente), o instinto é recuar um pouco a exposição e fotografar novamente. No entanto, há altas luzes que serão sempre aumentadas. Exemplo disso são as cenas do pôr-do-sol que pretendem apanhar o sol no campo visual. Por muito que queira trabalhar a exposição da imagem, o sol irá sempre apresentar um brilho forte, pela sua própria natureza.

Neste caso, deverá concentrar-se no resto da cena e estar preparado para, caso necessário, aumentar a exposição de forma a restringir o ruído e a “posterização” a níveis mínimos, em todo o resto da imagem. Resumindo: forçar à direita a exposição nos restantes elementos da imagem, de modo a capturar a maior quantidade de informação possível.

Outro elemento a ter em conta são as longas exposições. Fotografar exposições de 30 ou mais segundos complica a tarefa de calcular a exposição, principalmente naquelas situações em que a luz começa a diminuir, após o pôr-do-sol. Forçar a exposição à direita, mesmo até aos limites da sobrexposição, sem perder as altas luzes, requer uma avaliação muito cuidada, quando a única coisa com que está preocupado é aproveitar os últimos raios de sol para conseguir aquela fotografia que persegue há meses.

Nestas circunstâncias, a melhor solução provavelmente será não forçar a exposição completamente à direita, deixando uma pequena margem de conforto. Desde que a exposição não fique demasiado dentro das sombras, a remoção do ruído não será problemática. E talvez seja preferível a arriscar tudo e perder a oportunidade de um captar uma fotografia irrepetível.

Expor para a direita – ANTES
Expor para a direita – DEPOIS

Como compensar a exposição
A melhor forma de fazer ajustes delicados na exposição, no modo prioridade à abertura, é usar a chamada compensação de exposição. Isso vai permitir-lhe melhorar rapidamente a exposição em aumentos de 1/3 ou 1/2 stops.

O “mistério” do Histograma
O domínio da técnica de exposição à direita requer uma certa capacidade de interpretação daqueles gráficos que representam a distribuição dos tons claros e escuros da imagem. Sim, estamos a falar do histograma. A sua boa leitura é fundamental para que o fotógrafo possa avaliar se as fotografias estão subexpostas (demasiado escuras), sobrexpostas (demasiado claras), ou expostas correctamente.

De forma a que a exposição à direita funcione, temos de ser capazes de confiar e interpretar corretamente o histograma, exibido através do LCD das nossas câmaras. O que nem sempre é fácil. Isto porque o histograma não s basea nos dados do ficheiro Raw – mesmo quando estamos a fotografar neste modo. Baseia-se, sim, no JPEG que a câmara cria, usando os parâmetros que estão definidos na câmara nesse momento.

Por exemplo, se definir o contraste para o nível máximo, apesar de isto não se aplicar aos dados Raw, ele será aplicado à imagem e ao respetivo histograma. Ora, isso produz um histograma que não reflete com exatidão os dados Raw capturados e poderá ativar o aviso de altas luzes, quando na realidade elas não estão estoiradas.

Para ultrapassar esta contrariedade e conseguir um histograma mais exato, será necessário desativar todos – ou a maior quantidade possível deles – os parâmetros de processamento, na câmara. Mesmo que já a tenha programado para o formato Raw. Se a sua câmara tiver a função “Estilo de Imagens (Picture Styles)’ escolha aquele que parecer mais neutral, estando o contraste e saturação, por exemplo, regulados para os valores mínimos.

O resultado final é um histograma que é mais aproximado dos dados Raw, mesmo não sendo ainda assim uma representação totalmente exata dos dados. No prática, o que acontece mais frequentemente é o histograma dar a indicação de que estoirou as altas luzes, mas ao abrir o ficheiro Raw, no seu conversor/editor de imagens, perceberá que ainda lhe sobra muita margem de manobra.

A imagem não parecerá muito boa, no ecrã (demasiado brilhante e com falta de contraste e saturação), mas o objectivo da Exposição à Direita não é produzir ficheiros que fiquem muito bem no LCD da câmara. É sim produzir ficheiros que permitam um melhor processamento, assegurando um resultado final de maior qualidade.

Um ponto importante a ter em conta: quando forçamos a imagem muito próximo da sobrexposição, é recomendável o uso do histograma RGB para rever a foto, uma vez que é provável que queime as altas luzes num canal de cores, sem se aperceber. A maior parte das câmaras digitais mais recentes permite alternar entre histogramas.

Expor para a direita | Na prática
1 Definimos, no modo prioridade à abertura, o valor f/13, que deu 1/4” segundos de exposição. Olhando para o histograma, através do monitor da câmara, reparamos que está relativamente equilibrado (um pouco baixos os meios tons – parte central do gráfico -, mas nada de especial).

2 Se reparar, o histograma está dividido em cinco partes, equivalentes a cerca de um stop cada. No nosso caso, a área mais à direita ainda tem espaço para mais alguma informação. Adicionámos +1/3 stops de compensação à exposição, o que levou o histograma ainda mais para a direita.

3 Dando um pouco mais de compensação (neste caso passou para +2/3) puxámos a exposição um pouco mais para a direita, de tal forma que o aviso de altas luzes indica que perdemos detalhes na cena (pré-visualizando a imagem através do LCD da máquina e com a respetiva opção activada).

4 Curiosamente, quando abrimos a imagem no conversor RAW (no caso, o Lightroom), parece que ainda havia mais espaço disponível nas altas luzes do que era indicado no histograma da máquina. O que quer dizer que não perdemos qualquer tipo de detalhe na fotografia e a imagem foi processada normalmente. E bem! Isto demonstra que poderá puxar uma foto para a sobrexposição sem realmente queimar as altas luzes. No entanto, convém fazer o teste com o seu equipamento para ver até onde é possível ir.

5 Só para termo de comparação, decidimos capturar a mesma foto mas com -1 stop de compensação à exposição. O histograma na máquina não está assim tão mal – um pouco subexposto, mas não totalmente encostado às sombras (área mais à esquerda do histograma). Processar esta imagem para ficar equivalente à foto final (editada com base na imagem exposta para a direita) não é muito difícil. Mas, comparando as duas a 100%, a história é um pouco diferente. A subexposta (com histograma mais encostado à esquerda) revela mais ruído, menos detalhe guardado e transição de tons mais deficiente. Experimente e veja as vantagens de expor para a direita!

 

 

 

 

 

 

 

 

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