Imagens de fazer crescer água na boca

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Cristina Vaz

"Nasci em Agosto de ’77 na terra das Açordas e sou Fotógrafa Profissional certificada pelo Instituto Português de Fotografia do Porto. Sou autora do Livro Desculpas para Cozinhar e fundei em 2010 o VAZIO studio, um estúdio de fotografia dedicado exclusivamente à Gastronomia, onde desempenho as funções de Food Photographer e Food Stylist. Adoro partilhar prazeres que merecem ser descobertos. Quero sempre retratá-los dignamente e criar imagens de fazer crescer água na boca. Gosto de gatos, livros e flores, do iPhone, Paris, Londres e Nova Iorque. Adoro Clementinas e Melancia, o cheiro a Verão e o mar em dias quentinhos. Tenho uma paixão: Fotografar Comida."

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Não gosta de cozinhar, mas adora fotografar comida. Tanto, que até fez disso profissão. Cristina Vaz, fotógrafa de gastronomia, é a nossa convidada desta edição.

Se lhe disséssemos que os modelos das fotografias de Cristina Vaz acabam sempre por ser comidos, provavelmente o leitor desatava a gritar: “Fujam que vem aí o Hannibal Lecter!”. Claro que o pânico havia de desaparecer logo que explicássemos qual era o seu trabalho: fotógrafa de gastronomia. É que a Cristina Vaz tem a seu cargo a dura – ou talvez suculenta – tarefa de fazer sair bem na fotografia pratos de comida.

Sejam eles bruschetta, panna cottas, ou pratos de fast-food como hambúrgueres, ou mesmo clássicos da cozinha tradicional portuguesa, como o pouco fotogénico ensopado de borrego, todos eles passam pela sua objetiva, antes de irem para a mesa. Além de fotógrafa, Cristina é também food stylist, o que a coloca em vantagem em relação outros fotógrafos, uma vez que mexe no prato.

Sem esquecer a experiência como designer que lhe apurou o sentido do gosto e a fez descobrir a paixão pela fotografia, curiosamente impulsionada por um presente do marido. O fiel companheiro que faz de tudo: desde a direção criativa até ao olhar clínico, determinante para evolução de Cristina como fotógrafa.

Nunca teve a sensação de que fotografa sempre em ambiente controlado?
Sim, sempre. As minhas fotografias não são espontâneas. Não há fotografias espontâneas quando estamos a fotografar em estúdio e quando se trata de comida. Por muito que se tente que a fotografia pareça espontânea, nunca pode ser. Mesmo aquele chocolate a derreter ou o queijo a derreter, obviamente que nunca vai ser espontâneo. Agora, nós tentamos que pareça.

Como é que se capturam os sabores com a câmara?
Nós nunca conseguimos prever o que vai acontecer. Quando se começa a preparar um prato é tudo planeado ao ínfimo detalhe. Mas o que acontece dentro ou fora do prato não dá para ser espontâneo. Não dá para estar a improvisar. Mas não sei como se capturam os sabores. Tem a ver com o nosso olhar. Olhamos para a fotografia e vemos se realmente nos abre o apetite ou não.

A comida é um modelo que dá luta? Ou é colaborante?
Tem dias. Por vezes dá luta. Principalmente porque há alimentos que não são fotogénicos. Por muitas voltas que tentemos dar, não ficam bem na fotografia. Há pessoas que dizem “Ah, fico sempre mal nas fotografias” e há alimentos que também ficam mal nas fotografias. Por exemplo, o ensopado de borrego ou as tripas à moda do Porto. Em contraste, o morango e todos os frutos vermelhos são muito fotogénicos.

Qual foi o alimento mais difícil de fotografar, até hoje?
Os ensopados de borrego não são fotogénicos. Não é que sejam difíceis de fotografar, mas aquilo está dentro do prato, damos uma voltinha e é o que é. As coisas mais difíceis são, talvez, os hambúrgueres, porque têm de estar as camadinhas todas direitinhas e as coisas todas posicionadas para terem coerência. E depois há outras coisas difíceis de fotografar, como o chocolate a derreter, o borbulhar de uma cerveja, aquelas tostas mistas com queijo a derreter.

Normalmente, quando fotografamos, no início, tudo tem de ser planeado – e estou-me a contradizer, em relação ao que disse no início – mas às vezes tem de haver aqueles happenings, ou seja, quando nós colocamos o chocolate temos de tirar várias fotografias, para fazer a sequência e apanhar a melhor. Mas tem de haver aquele happening, aquilo aconteceu naquele momento espontâneo e depois, se não correr bem, vamos ter de fazer tudo de novo.

Todos temos uma história de amor com a fotografia. A sua é?
Eu não tenho bem uma história de amor pela fotografia. Quando leio entrevistas de outros fotógrafos, eles dizem sempre que foi desde pequenino que começaram a ter uma paixão pela fotografia porque alguém na família fotografava ou tinham lá em casa imensas câmaras e gostavam imenso daquilo. Eu não tenho esse background.

Não há ninguém na minha família que fosse fotógrafo nem nunca tive relação nenhuma com fotógrafos. Tem a ver com eu ser licenciada em design e haver uma sensibilidade para os detalhes que faz com que eu gostasse de fotografia, de mostrar às outras pessoas aquilo que eu vejo e que sei que as pessoas muitas vezes não reparam.

Mas foi a estudar, ou já no curso de design que começou a relacionar-se com a fotografia?
Quando estava a estudar tive a disciplina de fotografia que não me interessou particularmente. Tirava as fotografias que toda a gente tira e gostava de fotografar mas não era por aí além. Houve um aniversário em que o meu marido – na altura ainda namorado – me ofereceu uma câmara fotográfica daquelas semiprofissionais e eu comecei a tirar fotografias e a achar que era o máximo e que tinha imenso potencial.

Eu queria começar logo a concorrer a todos os concursos e o meu marido chamou-me um bocado à realidade… que é uma coisa que ele gosta muito de fazer. Começou a dizer-me que, se calhar, eu devia aprender, que não era bem assim, ter uma câmara fotográfica e já estar a concorrer a todos os concursos. E eu cai um bocadinho em mim e pensei: se eu gosto de fotografia e se quero fazer alguma coisa com fotografia, vou aprender. E pronto, inscrevi-me no curso do IPF do Porto e tirei então o curso profissional de fotografia.

E foi lá que fez a parte mais importante da sua formação?
Sim, estive no IPF dois anos. Mas, como eu na altura trabalhava com freelancer, na área de design, eu tinha uma visão muito comercial. Eu sabia para o que ia. Não ia tirar fotografias simplesmente para expor numa galeria ou fosse onde fosse. Queria fotografias comerciais porque queria fazer da fotografia a minha vida.

Portanto, tinha que ser uma coisa para o lado mais comercial. E quando estava a tirar o curso era engraçado porque, no início, eu dizia às pessoas que queria tirar fotografia porque queria fazer fotografia de comida. E as pessoas achavam muito estranho, porque ninguém tinha essa sensibilidade.

Diziam: fotografia de comida? Mas quê? Vais fotografar camarões? Toda a gente achava imensa piada e ninguém via o potencial. Tanto que, hoje em dia, no curso do IPF, se está a dar uma parte de uma disciplina já virada para a comida. E acho que foi a partir da altura em que tirei lá o curso que eles ficaram sensibilizados para essa disciplina.

Viver da fotografia, em Portugal, já é coisa complicada. Agora, viver só da fotografia gastronómica é algo que, decididamente, não é para qualquer um. Qual é o segredo?
Engraçado perguntar-me isso, porque toda a gente nos faz essa pergunta. Há pessoas que olham para mim e perguntam: mas há fotógrafos de comida? Quando vão aos restaurantes do centro comercial e olham para aquelas fotografias, não sei de onde é que as pessoas acham que aquelas fotografias saíram e acham que não há fotógrafos de comida.

Eu não tenho nenhum segredo para isto ter tido o sucesso que teve. Acho que tem a ver com a minha dedicação e com o amor que tenho por aquilo que faço. E pronto, ter disponibilidade e ser muito persistente. Realmente, hoje em dia é preciso trabalhar e eu acho que, mais do que trabalhar, é preciso gostar do que se faz e quando se gosta daquilo que se faz só temos que ter sucesso.

Qual é o seu mercado em Portugal?
Basicamente, as marcas. Marcas de restaurantes de shopping, grandes marcas como hipermercados… Quando eu comecei a querer tirar fotografia, eu queria ir ao pequeno restaurante, dali da esquina, porque eu na altura já fazia design para a pequena empresa e eu queria era fazer fotografia para a pequena empresa, porque achava que toda a gente tinha que ter direito a isso e queria fazer isso. Só que, com a atual situação que temos em Portugal, os pequenos restaurantes não têm dinheiro para investir. Portanto, eu acabei por trabalhar para grandes marcas e para grandes restaurantes.

Já sabemos que não gosta de cozinhar, mas gostávamos de saber qual é o condimento principal da sua fotografia? Aquilo que lhe dá aquele “sabor” inconfundível?
Acho que é a obsessão que eu tenho pelos detalhes, estar sempre insatisfeita com o resultado, querer sempre melhorar. Em relação ao foodstyling, com o que está à volta de mesa, tem a ver com a escolha dos acessórios que têm alma. Eu tenho imensas coisas da minha avó Emília que fui buscar e que gosto de usar porque dá aquele toque especial. E acho que é isso que dá o sabor às minhas fotografias.

A iluminação é importante na sua fotografia?
Sim. Já me falaram que a minha iluminação é muito característica. Às vezes as pessoas ficam abismadas quando assistem às minhas sessões. Olham para o set e depois, quando olham para o computador, dizem “Ah não tem nada a ver”. E isso, claro, tem a ver com a iluminação.

Edição de imagem é um bocadinho como o sal, não é? Se abusarmos dela, estraga tudo?
Concordo que, se abusarmos da edição, estraga. Mas na área em que eu estou, na fotografia comercial, às vezes temos de ‘abusar’ mas sempre com conta peso e medida. Como eu venho da área do design, para mim o tratamento de imagem é fundamental.

Além de que, eu quando estou a fotografar, já estou a ver o resultado final com o tratamento. Muitas vezes nós temos de sensibilizar o cliente: “cuidado que esta fotografia ainda não está tratada, mas quando ficar tratada vai ficar com outro aspeto”. E nesta área tem mesmo que ser assim.

Já percebemos que a fotografia de Cristina Vaz não seria a mesma sem a parceria com o Luís. Em que medida ele é importante no seu trabalho?
Ele é mais importante do que tudo. Sem ele eu não conseguiria chegar onde eu estou. Para além de ser a pessoa que me apoia e sempre me tem apoiado em todo o processo, também é a pessoa que mais critica o meu trabalho. E sem as críticas dele, eu não evoluiria tanto como tenho evoluído. Ele está sempre comigo nas sessões e, como também é designer, faz direção criativa das fotografias.

Aquela peça do seu equipamento sem a qual não pode mesmo viver é…
Tem três e são completamente diferentes. Uma é o meu marido [risos], outra é a minha pinça porque estou sempre com a pinça na mão – e a perdê-la também – para mexer no prato. Obviamente não mexo com as mãos. Uso-a para acertar aqueles detalhezinhos. Ao nível da fotografia, obviamente seria a minha objetiva macro. É com ela que trabalho mais e é ela que me satisfaz mais. É uma 100mm da Canon.

Tem ideia de qual foi a sua primeira câmara?
Foi uma Nikkon mas já foi digital. Eu não sou do tempo do analógico. E agora tenho uma Canon [EOS 5D Mark II].
Resposta de pergunta obrigatória e não adianta estar com rodeios que ninguém escapa a ele. Todos a gente têm histórias divertidas, incidentes, pequenas trapalhadas que aconteceram quando fotografava. Conte lá qual foi a sua?
Foi uma fotografia que eu estava a fazer para a brochura do “Vazio Studio” e queríamos tirar algumas fotografias para nos apresentarmos.

Entretanto, como nós não cozinhamos, tentamos sempre contornar a coisa de modo a chegarmos ao resultado final sem termos de estar a cozinhar muito. Sem ter que estar com aqueles malabarismos todos que os cozinheiros fazem.

Então, nós queríamos fotografar uma panna cotta com os frutos vermelhos e com o molho a escorrer… aquele tipo de fotografia muito apetitosa. Ora, a panna cotta é uma coisa muito difícil de fazer e nós tentamos contornar a coisa. Comprámos uma gelatina de coco, que era branca também, tentamos fazer com iogurte congelado mas não conseguimos fazer aquilo de maneira nenhuma.

Entretanto, o Luís desistiu e eu comecei a olhar e tinha uma tigela que era exatamente a forma da panna cotta. Então o que eu fiz foi pegar na tigela, meti no prato, meti o molho por cima, os morangos, pus tudo direitinho, criei a fotografia, mostrei-lhe e diz ele: “Ah, como é que conseguiste? Está fantástico!”.

Antes de olhar para o set, ele viu a fotografia e achou que estava mesmo apetitoso. E, quando foi ver, ele não queria acreditar que era uma tigela de porcelana, branca, que estava ali. Nós hoje em dia contamos muitas vezes esta história. Porque eu adoro esta história e as pessoas quando começam a olhar é que se apercebem realmente do que é. Mas antes de contarmos a história dizem “ai que comida apetitosa”.

Se a sua câmara falasse. O que diria ela?
Eu já estou com o meu marido no “Vazio Studio” há cerca de dois anos. Já fizemos aí uns 50 mil quilómetros porque nós somos um estúdio que vai ao domicílio. Eu não consegui contar os cliques da minha câmara, mas acho que a única coisa que ela diria era “deixa-me descansar”.


A bruschetta

Gosto particularmente desta fotografia pelo facto de ter sido uma das primeiras que produzi e ainda considerar o registo bastante atual.  Como já referi não gosto de cozinhar, mas não quer necessariamente dizer que não gosto de comer. Sou fascinada por comida italiana e influenciada pela dieta mediterrânea e os ingredientes que a compõem. Adoro comida despretensiosa, realista e que qualquer pessoa consiga fazer, até eu. Neste caso, tudo gira à volta de uma simples bruschetta, poucos ingredientes mas muito Apetite Appeal.

Na altura estava a desenvolver o “Desculpas para Cozinhar” e a pesquisar ideias para o livro. A vontade de produzir esta fotografia surgiu depois de um almoço que tive com o meu marido, o Luís, em que nos serviram uma bruschetta pouco apetitosa. Fiquei com vontade de a enaltecer sendo merecedora de atenção pelo seu enorme potencial. É simples e simplesmente perfeita. Tecnicamente, para produzir esta fotografia deparei-me com diversos problemas que, por entusiasmo e alguma destreza, facilmente ultrapassei.

Primeiro, pensar como resolver a preparação do produto a fotografar. Neste caso, como os ingredientes não precisavam de ser confecionados, concentrei-me em escolher os mais apetitosos em qualquer mercearia. Na altura, como ainda não tinha cabeças de flash, recorria apenas a luz natural, espelhos e refletores. Em contrapartida, tinha a sorte de ter uma cozinha com grandes janelas, o que me facilitava o trabalho.

O maior desafio foi de agilizar e conciliar tudo para conseguir produzir a fotografia sozinha pois, na altura, o Luís ainda trabalhava a tempo inteiro. Depois de tudo montado, iluminação, refletores, câmara, foco, tomate cherry e orégãos, com uma mão na câmara e outra na garrafa de azeite, disparei. A luz estava perfeita, adicionei apenas um pouco de sharpen e está pronto a servir!
Usei uma objectiva macro 50mm, f2.8, 1/500.

Equipamento:
Canon EOS 5D Mark II,
Canon EF 100 mm f/2.8L Macro,
Canon EF 24-105mm F/4L,
Tripé Manfrotto.

Estúdio Portátil Bowens:
2xCompact Flash Monolights Gemini 500R,
Softbox 60×80, 2 x Softbox 80×100;
MacBook Pro 15″
… e algumas malas cheias de truques e acessórios.

 

(Artigo publicado da Revista ZOOM Edição nº 15)

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