Inspiração pela natureza e simplicidade

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Zi Fernandes

Zi Fernandes, uma fotógrafa sensorial, brasileira completamente apaixonada por Portugal, que ama viver, fotografar coisas autênticas e que encontrou na natureza o melhor para o coração e os melhores elementos para os seus cliques.

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Olá Zi! Desde já muito obrigado por aceitares este nosso convite. Poderias começar por te apresentares aos nossos leitores?
Sou a Zi Fernandes, 30 anos, natural do Brasil, Rio de Janeiro. Mas atualmente me apaixonei pela cidade de Lisboa e cá vivo há cerca de 1 ano e meio. Trabalho exclusivamente como fotógrafa, mas também tenho me dedicado a escrita, estou escrevendo um livro infantil, um outro sobre a jornada como Brasileira na Europa e um terceiro sobre a minha trajetória na fotografia.

Canon 5D MK II . Canon EF35mmF2 @35mm . f/13 . 1/15″ . ISO 160

Ainda te recordas quando começou o teu interesse pela fotografia?
Eu tive a sorte de estudar em uma escola (realmente única) no Brasil, Rio de Janeiro, na qual de manhã era ensinado as matérias curriculares e a tarde era ensinado artes: dança, teatro, fotografia, animação, música e etc… aos 15 anos tive o primeiro contato com a câmera analógica em uma dessas aulas, e pronto, iniciou ali a paixão. Lembro-me mesmo a sensação de ter a câmera em minhas mãos. Procurei diversos cursos e fui estudando, lembro-me que eu era sempre a aluna mais nova no meio de diversos adultos. E sempre tive muito incentivo dos meus avós, que acabaram por me presentear com diversas câmeras.

Mas nunca imaginei que seria uma profissão, era mesmo uma hobby e uma forma que eu tinha de entender, absorver o mundo e também dar a minha opinião sobre as coisas através dessas imagens em que eu buscava. Ainda com 16 anos, eu gostava de fotografar garotas de programa em Copacabana. Era divertido! Quando terminei a escola, optei por cursar direito, pois sempre amei escrever e me preocupo imenso com as questões humanas. No entanto, abandonei o curso porque eu estava mesmo sentindo falta da arte, e dentro as possibilidades encontrei no curso de Comunicação Visual, parecia fixe e lá aprendi a perceber e a comercializar esse meu hobby.

Canon 5D MK II . Canon EF35mmF2 @35mm . f/4.0 . 1/500″ . ISO 100
Canon 5D MK II . Canon EF50mmF1.4 @50mm . f/2.2 . 1/200″ . ISO 100

Decidida a fazer da Fotografia uma ocupação a tempo inteiro, como foi o teu percurso que te trouxe até aqui a Portugal?
No mesmo ano em que me formei em Comunicação Social, decidi melhorar o meu Inglês fui fazer intercâmbio em Dublin, na Irlanda. Fiquei lá por 3 anos e foi maravilhoso, mas eu sentia falta mesmo de céu azul, sol e de falar português, e olhando o mapa, sem antes ter visitado Portugal (curioso, pois viajei muito e nunca tinha vindo pra cá), decidi que ia morar em Lisboa, juntei as malas novamente e vim com a minha gata.

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/22 . 1/40″ . ISO 100

Consideras que a tua história de vida, tudo o que experimentaste, de positivo ou negativo, as viagens que fizeste, as pessoas que conheceste, de alguma forma influenciaram o teu estilo, o género de fotografia que fazes hoje em dia?
Esse é mesmo um assunto que faz tudo valer à pena, até chegar aqui foi preciso arriscar muito, ter coragem para errar, assumir o erro, buscar ajuda quando preciso, sonhar alto, acreditar em mim e não ter medo de um mercado tão competitivo e que dita tantas regras, porque assusta. Na fotografia também não fugimos das modas. Houve o período das fotografias mais amareladas, depois as mais dramáticas, depois as Fine Art (as mais clarinhas), sempre gostei de todas essas cenas, mas elas não me representavam, não era o que eu gostava de produzir.

Mesmo assim não me rendi, busquei a minha assinatura e entendi que para brigar com esse mercado e também para conquistar os clientes, eu precisava ser diferente e boa. Quando morei na Irlanda, sofria porque eu ainda estava descobrindo o meu estilo e por isso recebia muitas críticas pesadas. Nunca tive medo de expor o que produzia. Chegaram a dizer que eu nunca ia ser uma fotógrafa de sucesso, na verdade escutei isso mais de uma vez.

Obviamente isso me abalou, mas eu sabia que precisava estudar mais e assim mergulhei nos estudos sobre o tema e também no autoconhecimento que é tão importante para termos uma identidade artística. Depois disso, comecei a ganhar muitos prémios e ano passado fui convidada para palestrar em uma das maiores conferências de fotografia do mundo, o “Inspiration Photographers Conference” – nunca imaginei que esse dia chegaria em um palco para tantos fotógrafos, nem em 10 anos de profissão, foi mesmo uma surpresa, e o maior desafio da minha vida, mas também foi a certeza que eu estava fazendo algo realmente forte e que além disso, pessoas queriam me conhecer e se inspiravam em mim.

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/2.0 . 1/80″ . ISO 50

Poderias explicar o porquê da tua maravilhosa história dos cartazes que colocaste nas ruas de Lisboa, como método para chegar às pessoas que mais tarde acabarias por fotografar?
Eu amo coisas mais analógicas e o universo digital me irrita imenso. Sempre vi muitos cartazes pelas ruas em Lisboa e acho essa comunicação muito interessante. Me esforço (só eu sei o quanto) para sobreviver nesse universo dos likes, métricas digitais, seguidores e tudo mais. No entanto, percebo que ao me comunicar com pessoas que se sentem atraídos por um cartaz de papel poderia atrair pessoas diferentes e menos preocupadas.

Com a ditadura da imagem do Instagram em que vivemos, sem querer as pessoas já estão viciadas em poses e querem fotos que gerem impactos, imagens mais sensuais ou até mesmo fotografias recheadas de mentiras. Eu buscava pessoas que queriam se entregar ao fotógrafo e pela deliciosa sorte do destino fui retribuída.

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/4.0 . 1/1250″ . ISO 100
Canon 5D MK II . Canon EF50mmF1.4 @50mm . f/3.2 . 1/1250″ . ISO 100

Atualmente, que tipo de trabalho comercial fazes?
Já fiz todos os tipos de sessões tanto em externa e estúdio, mas de alguns anos para cá comecei a ficar mais atenta ao que me deixava feliz. Tudo começou quando quis fotografar famílias em casa em suas reais rotinas. Mas depois fui perceber que essa também não era o que eu mais gostava, e nessa investigação e angústia busquei na natureza e na simplicidade as ferramentas necessárias.

Atualmente tento levar as famílias ou os casais para ambientes repletos de vida, texturas, cores, água, terra, plantas, enfim… percebi que para chegar ao simples é preciso muito trabalho. E ao colocar essas pessoas em contato com algo que elas acabaram se distanciando, percebo que consigo captar nelas coisas escondidas e genuínas. A cidade grande, mesmo que em uma sessão externa, sim te bloqueia, te faz proteger de coisas e te limita.

Canon 5D MK II . Canon EF50mmF1.4 @50mm . f/3.5 . 1/2000″ . ISO 100
Canon 5D MK II . Canon EF50mmF1.4 @50mm . f/3.5 . 1/1000″ . ISO 160

Além do teu trabalho comercial, certamente tens também os teus projetos pessoais, aquilo que fotografas para ti, por puro interesse pessoal. Gostarias de nos contar um pouco?
Desde Junho deste ano passei a me dedicar exclusivamente ao trabalho autoral. E para isso é preciso muita disciplina e traçar objetivos. Conversei com muitos fotógrafos antes, busquei mentorias e tudo para entender como esse mundo funciona. E para mim, é muito difícil fazer o comercial e autoral, porque o autoral exige muito de nós, precisamos estar completos. Tive mesmo que ter coragem, fiz as pesquisas do que quero fotografar, entrei em contatos com quem devia, desenvolvi um calendário de trabalho e por fim, tenho que acreditar que essa mudança vai dar certo, porque sinto-me mesmo feliz assim.

Que importância tem, para um fotógrafo, desenvolver também os seus projetos pessoais sem intuito comercial?
Acho que cada um é um, depende da essência do fotógrafo, no meu caso esses projetos precisavam sair. Sinto que nasci para fazer isso! Comecei a fotografar como uma forma de me comunicar e não de comercializar. Há fotógrafos que não sentem a necessidade da autoria, estão felizes com a fotografia comercial. Acho que os projetos pessoais servem para posicionar o ser humano que existe por trás das câmeras diante ao mundo que ele habita, afinal a fotografia é um ponto de vista sobre as coisas e atrás de opiniões há seres humanos com tuas percepções e histórias. Há pessoas como eu, que sentem a necessidade de dar opinião e gritar. Outros, se completam guardando memórias de outras pessoas. O importante é saber o que quer e ir à luta.

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/2.0 . 1/100″ . ISO 2000

No âmbito da tua série de imagens sobre as Eco Villages, como foi a tua recepção pelos seus habitantes, e como consegues obter fotografias tão intimistas e pessoais?
Acho que conseguir chegar na intimidade das pessoas é uma facilidade que tenho, gosto mesmo de sair do superficial, amo conversar e sinto quando as pessoas começam a se entregar para mim, é natural como um flerte ou o primeiro beijo, as coisas acontecem com um ritmo certo e no fim se vive algo novo. Sou muito tímida, mas a vontade de captar imagens fortes é tanto, que faz com que eu quebre essa barreira, me desapegue as vezes de quem sou para escutar e observar a realidade do outro. Absorver aquele mundo que vivem, fingir ser um deles, pensar como eles, costumo dizer que deixo a fantasia do “meu eu” fora para me permitir ser um deles. Depois que esse contato acontece, eu coloco o acessório (a câmera) e fico mesmo atenta com muita generosidade ao que acontece.

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/3.5 . 1/400″ . ISO 320
Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/3.5 . 1/500″ . ISO 320

Que dicas poderias partilhar sobre como fotografar as crianças e as suas brincadeiras?
A verdade é crua e dura, quando fotografamos crianças são elas que nos presenteiam com as imagens. Todas as fotos que tenho, foram prendas delas. O meu esforço é perceber a beleza na simplicidade, que às vezes o adulto não consegue. Sinto-me mesmo como se fosse um pára-raios apenas a esperar o impossível – que o raio pare em mim. E por sorte, não é sempre também, as super fotografias acontecem em fração de segundos. Acho que quando olhamos nos olhos das crianças, elas se jogam para nós. Se fosse falar sobre técnica, acho que é isso, olhos nos olhos.

Canon 5D MK II . Canon EF35mmF2 @35mm . f/5.0 . 1/200″ . ISO 320
Canon 5D MK II . Canon EF35mmF2 @35mm . f/13 . 1/15″ . ISO 160

Qual o equipamento que usas atualmente?
O equipamento que utilizo é super simples: uso Canon 5D (II, III ou IV), 35mm f/2.0 e 50mm f/1.4.

Ainda relativamente à escolha da câmara, no momento de aquisição utilizaste critérios como por exempo preço, fidelidade à marca, tamanho, características, …?
Sinceramente não sou ligada a isso, gosto de todas as câmeras, continuo com a Canon pois comecei com ela e gosto da paleta de cores. Mas se tiver que mudar de equipamento eu também vou me divertir com isso. O importante é ter lentes leves e poucas coisas. Não gosto de ser caracol e trazer tudo nas costas.

Que configurações utilizas habitualmente na câmara para este tipo de fotografia?
Bom, nunca sei, é mesmo natural e decido tudo na hora, mas gosto muito de velocidades baixas, quanto a abertura e ISO, depende muito do dia, na verdade nunca prestei atenção nisso, acho que a câmera é quase um membro meu, foi ajustando sem perceber bem o que faço hehehe!

Canon 5D MK III . Canon EF35mmF2 @35mm . f/3.2 . 1/200″ . ISO 1000
Canon 5D MK II . Canon EF50mmF1.4 @50mm . f/2.2 . 1/125″ . ISO 400

Para concluir, poderias partilhar com os nossos leitores o teu fluxo de trabalho habitual após a captura (backups, selecção de imagens, processamento, presets, o software que utilizas, etc.)?
Já tive problemas com fotografias corrompidas e foi traumático, hoje ao chegar de cada trabalho eu não faço nada antes de fazer backups por toda a parte. Eu não gosto de editar as imagens logo em seguida do trabalho, gosto de esperar cerca de 1/2 semana para esquecer essas imagens e olhar com outros olhos. Uso o Lightroom e não tenho presets. Na verdade a parte “pós” é o que mais me deixa desanimada, detesto mesmo computador. Mas faz parte! Tento fazer o mais rápido possível hehehe!

Zi Fernandes

  • Nomeada para lente de ouro como fotógrafa revelação pelo Inspiration photographers
  • Pré exposição, dia 17 de outubro no Boa Vida café, na Baixa

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