Gonçalo Lobo Pinheiro – Fotógrafo Português Premiado Internacionalmente

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Gonçalo Lobo Pinheiro

Fotógrafo português a viver em Macau há 9 anos. Procuro documentar muito daquilo que são os verdadeiros problemas das sociedades: pobreza, violência doméstica, toxicodependência, igualdade de género, etc. É por aí que quero continuar a seguir o meu trabalho, baseando o meu percurso em três pilares essenciais: fotojornalismo, documentalismo e fotografia de viagem.

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Olá Gonçalo. Antes de mais, gostaríamos de manifestar o nosso agradecimento por aceitares o convite para esta entrevista. Poderias começar por te apresentares e contar aos nossos leitores quando começou o teu interesse pela Fotografia?
Eu é que agradeço a oportunidade para poder falar do meu trabalho. Chamo-me Gonçalo Lobo Pinheiro, tenho 40 anos, 19 dos quais na fotografia profissional. O meu interesse pela fotografia à séria chegou tarde, apenas com 18 anos. Na altura, tinha uma analógica Minolta Dynax 5 e uma digital, acabadinha de sair, Olympus C-3020 de apenas 3.2 Megapixels (na altura custou-me um balúrdio).

Nesse instante, entendi que a fotografia, sendo uma nova descoberta e depressa tornado um hobby, podia ser muito mais. Entrei para o portal Foto@pt, onde conheci muitos fotógrafos amadores e profissionais. Com eles aprendi muito. Ainda mantenho diversos laços de amizade com alguns deles. Mais tarde entrei para o 1000imagens. O caminho estava a desbravar-se…

Canon 5D MK II . Canon EF70-200mmF2.8 @200mm . f/5.6 . 1/1328″ . ISO 400
Fuji X100T . @23mm . f/4.0 . 1/50″ . ISO 200

De Engenharia Geológica para Jornalismo é uma mudança de 180 graus! Essa tomada de decisão certamente mudou a tua vida em todos os aspetos. Que conselhos darias aos nossos leitores mais jovens e que procuram prosseguir uma carreira no mundo do Fotojornalismo?
Uma mudança enorme. Sempre estive na área das ciências, logo desde o 9.º ano. Tinha a noção, talvez ainda um pouco imatura, que queria algo relacionado com a Geologia e a Biologia. Por isso, segui por aí e entrei na Universidade Nova de Lisboa, em 1997, para cursar Engenharia Geológica, curso que deixei de lado em 2001 para ir estudar Jornalismo para a Universidade Autónoma de Lisboa. Licenciei-me em 2005. Já fazia muita fotografia e, felizmente, ganhava dinheiro com ela.

Esta mudança mudou-me a vida e ainda bem. Foi a decisão mais acertada, apesar de todas as vicissitudes. Na verdade, o grande conselho que dou é: não desistir, acreditar em ti mesmo e nas tuas capacidades. Nunca ninguém me deu nada. Tudo o que conquistei até hoje foi com o meu trabalho, com a minha seriedade e honestidade. Por isso, acho que as pessoas não podem desistir dos seus sonhos, mas acima de tudo serem sérias e honestas com elas mesmas e com os outros.

Fuji X100T . @23mm . f/5.6 . 1/16″ . ISO 400
Canon 5D MK II . Canon EF17-40mmF4 @17mm . f/4.0 . 1/30″ . ISO 400

Como é viver em Macau e que principais diferenças encontraste no que respeita ao teu trabalho?
Viver em Macau é, mesmo que isso possa não parecer, fácil. É uma terra de oportunidades. Pequena, onde tudo está à mão. Ter vindo para Macau mudou por completo a minha abordagem à fotografia. Entre 2005 e 2010 trabalhei, a grosso modo, com fotojornalismo desportivo, servindo A Bola e o I. Fiz muito desporto (algo que gosto muito e tenho saudades de fazer mais). Contudo, a vinda para Macau trouxe-me uma abordagem mais documental da fotografia.

Hoje em dia, a minha visão prende-se mais com questões de índole social. Procuro documentar muito daquilo que são os verdadeiros problemas das sociedades: pobreza, violência doméstica, toxicodependência, igualdade de género, etc. Aqui, e um pouco por toda a Ásia, tenho tido essa oportunidade e é por aí que quero continuar a seguir, baseando o meu percurso em três pilares essenciais: fotojornalismo, documentalismo e fotografia de viagem.

Canon 5D MK II . Canon EF24-105mm @51mm . f/5.6 . 1/400″ . ISO 100

Nos tempos livres procuras desenvolver algum projeto pessoal na área da Fotografia? Quais as temáticas que mais te motivam?
Sempre que posso, sim. Como respondi na anterior questão, procuro sempre achar motivação naquilo que são as chamadas questões sociais. A antropologia da fotografia, se é que posso dizer isso.

Fuji X100T . @23mm . f/4.0 . 1/6″ . ISO 200

O teu trabalho documental “Macau 5.0” trata-se de um projeto desenvolvido ao longo de vários anos, certo? Ao longo desse tempo sentiste que, de alguma forma, a tua abordagem à vida quotidiana em Macau mudou?
Procurei fazer um balanço dos meus primeiros cinco anos de Macau, porque na verdade, e parecendo que não, o território mudou muito em cinco anos. Esse livro, que acabou por ser o meu primeiro a título individual, procurou ser, sem pretensiosismos, uma súmula antropológica da Macau contemporânea. E acaba também por ser a reunião de muitos dos meus trabalhos fotojornalísticos realizados para diversas publicações do território e de outros países.

Canon 1D X . Canon EF70-200mmF2.8 @115mm . f/5.6 . 1/800″ . ISO 200
Canon 1D X . Canon EF17-40mmF4 @17mm . f/4.0 . 1/10″ . ISO 3200

O teu trabalho tem sido reconhecido nacional e internacionalmente, como por exemplo o retrato da migrante indonésia que trabalha em Macau. Pode dizer-se que estas distinções constituem um incentivo a continuar o difícil trabalho de fotojornalista e, por outro lado, uma confirmação de que a trajetória escolhida para a tua carreira há vários anos estava correta?
Principalmente nos dois últimos anos. Não escondo que é gratificante ver que o teu trabalho tem qualidade. Fico muito contente com isso, confesso. Penso que estou no caminho certo, mas não chega. Não podemos viver à sombra de prémios e distinções, mesmo que estes te tragam alguma notoriedade que é precisa em profissões como a de fotógrafo, principalmente quando trabalhas ou tens oportunidade de trabalhar em diversas partes do globo.

Penso que o caminho se faz caminhando, passe a redundância e o lugar comum do ditado popular, mas a verdade é que ainda tenho 40 anos e um caminho longo (espero) para percorrer, sempre com a mesma vontade de procurar histórias e, acima de tudo, com a mesma postura séria e honesta. É assim que me pauto no dia-a-dia e isso tem trazido os seus frutos.

Canon 1D X . Canon EF17-40mmF4 @35mm . f/4.0 . 1/80″ . ISO 1600
Canon 5D MK II . Canon EF24-105mm @105mm . f/5.6 . 1/500″ . ISO 100

E a nível de equipamento, poderias descrever o que utilizas atualmente em termos de câmaras, objetivas e principais acessórios?
Neste momento, uso para trabalhos de breaknews a Canon 1DX com diversas lentes desde a 17-40 f4 até à 300 f2.8, passando pela 24-70 f.28, a 70-200 f2.8 ou ainda a 15mm para brincar um pouco. Basicamente se vou fazer desporto, manifestações, catástrofes, etc uso a Canon. Se for fazer retrato, fotografia de rua e fotografia de viagem uso a Fujifilm X-T20 com duas objectivas. Durante dois anos tive também a Fujifim X100T.

Fuji X100T . @23mm . f/2.0 . 1/40″ . ISO 800

Entre os fotojornalistas, e todos cujo trabalho obriga a uma grande mobilidade, é comum a máxima “O mínimo equipamento possível, mas todo quanto necessário”. No teu caso, és daqueles que sai à rua com um saco/mochila mais minimalista, ou pelo contrário, preferes ir prevenido para qualquer situação com a qual te possas deparar?
Essa é uma questão complicada e as minhas costas já me andam a dizer para parar. Tenho diversas opções de transporte, conforme o trabalho que vou fazer, desde trolley, a mochila, a tiracolo e até a NowBomb. É só escolher. Por normal, quando uso a Canon vou bem mais carregado do que quando uso a Fuji.

Fuji X100T . @23mm . f/5.6 . 1/3200″ . ISO 400

Se tivesses que começar o teu kit do zero e sem estar comprometido com o investimento já efetuado em determinada marca, de entre a imensa oferta atual no mercado, existe algum sistema/marca que te agrade especialmente?
Estou satisfeito com o que tenho. Uso Canon desde 2003, quando comprei uma 10D, depois em 2005, uma 1D Mark II N. Comecei a usar Fuji em 2014, assumo por influência do Miguel Madeira, antigo fotojornalista do Público e grande companheiro destas lides. Estou muito satisfeito, mesmo. Não sou salta pocinhas como muitos fotógrafos, que andam ao sabor daquilo que aparece. Durante muitos anos com Canon fui aliciado para mudar para a Nikon e nunca o fiz. E agora, mais recentemente, também já me perguntaram se pretendo mudar para a Sony.

Eu pergunto: porquê? Não vejo necessidade nisso. Estou satisfeito. E muitos dos que conheço que saíram da Canon para a Nikon ou da Fuji para a Sony, já estão arrependidos e até já voltaram atrás. Claro que há outros que amam essas marcas e não outras. Na verdade, nada me move. A Canon e a Fuji nunca me deram nada, muito pelo contrário. Não alimento essas guerrinhas das marcas e, sinceramente, não gosto de influenciar ninguém em equipamentos.

Canon 5D MK II . Canon EF70-200mmF2.8 @135mm . f/5.6 . 1/1000″ . ISO 100

Para concluir, existe algum episódio em particular que tenhas vivenciado durante o teu trabalho e que possas partilhar?
Há sempre diversos episódios. Lembro-me de deixar cair uma 70-200 de uma escadaria ou de uma 16-35 ter caído com a parte do filtro e lente direitinha na quina de uma rocha na praia. Penso que há sempre estórias para contar. Cheguei a levar com jogadores de futebol em cima, em pleno jogo. Já fui agredido em trabalho. Já fui identificado. Talvez a cena mais chata tenha sido levar com a descarga de um avião de combate a incêndios em cima e isso aconteceu em Sintra em 2007. Eu e o equipamento ficámos todos encharcados. Hoje rio-me disto, mas na altura fiquei bem aborrecido.

Canon 1D MK II . @21mm . f/4.0 . 1/3200″ . ISO 200

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