A natureza através da fotografia

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Raquel Sousa

"Nasci em Oliveira de Azeméis e cresci em França, rodeada por tudo o que é típico da emigração portuguesa. Sempre que podia, escapava para Portugal e, desde que sou gente, lembro-me de querer voltar de vez. O desejo concretizou-se aos 18 anos, aquando do ingresso no ensino superior. Formei-me em Ciências Farmacêuticas no Porto e hoje trabalho como farmacêutica, em Águeda. A fotografia surgiu, ali pelo meio da faculdade, como uma escapatória artística às ciências da saúde."

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Comecei por explorar vários tipos de fotografia, um pouco à sorte e sem grandes pretensões, sem nunca me debruçar seriamente sobre nenhum assunto. Tudo mudou em 2014, numa caminhada fotográfica pelo Porto, onde conheci um grupo de fotógrafos amadores, especializado em fotografia de paisagem. Inicialmente, ao integrar o grupo, o meu objectivo era aprender a trabalhar com a minha câmara e saber usar o modo manual, mas muito rapidamente esse objectivo evoluiu e comecei a ver para além dos termos técnicos. Foi aí que realmente me apaixonei pela fotografia mas sobretudo pela natureza. O Paulo Pereira e o José Moreira, líderes do grupo Photo Details, são professores incansáveis e muito do que alcancei na fotografia foi com a preciosa ajuda deles.

Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/8 . 5.0″ . ISO 100 – Ribeira, Porto
Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/9 . 1/20″ . ISO 100 – Palácio do Buçaco, Luso
Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/22 . 399″ . ISO 100 – Praia da Granja, Vila Nova de Gaia
Covão d’Ametade, Serra da Estrela

Comecei a fotografar com uma Canon 700D, primeiro com a objectiva EF-S 18-55mm f/3.5-5.6, à qual juntei a EF 50mm f/1.8 e depois a EF-S 55-250mm f/4-5.6. Mas foi quando adquiri uma objectiva grande angular, a EF-S 10-18mm f/4.5-5.6, que realmente encontrei o meu par perfeito. A partir daí, mal usava as outras objectivas, e, com a ajuda da Photo Details, empenhei-me, melhorei a minha técnica e a minha composição, ao mesmo tempo que criava laços numa comunidade unida de fotógrafos.

Fuji X-T3 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @18mm . f/2.8 . 15″ . ISO 3200 – Castelo de Valongo, Évora

Ao longo destes anos continuei a participar nos workshops e viagens fotográficas da Photo Details. Foi assim que descobri vários recantos do nosso país, passando pelo Alentejo, a Serra da Estrela, os Açores, mas também re-descobri, desta vez com um olhar fotográfico, locais do meu próprio distrito, como por exemplo a ria de Aveiro, a Pateira de Fermentelos ou ainda a Serra da Freita.

Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/8 . 25″ . ISO 160 – Serra da Freita
Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/10 . 1/60″ . ISO 100 – Ilha das Flores, Açores
Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/11 . 1/40″ . ISO 100 – Cascata da Ribeira, Ilha das Flores, Açores
Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/11 . 0.3″ . ISO 160 – Capela do Senhor da Pedra, Vila Nova de Gaia
Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/11 . 40″ . ISO 160 – Cais da Bestida, Murtosa

Devo dizer que um dos locais que mais me marcou, até agora, foi a Ilha do Corvo, nos Açores. Ainda hoje não consigo explicar a sensação que foi estar no topo do Caldeirão a fotografar o pôr-do-sol. Sinto-me muito grata para com a fotografia por me ter feito parar, observar e absorver a beleza que é natureza.

Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/11 . 1/100″ . ISO 100 – Caldeirão, Ilha do Corvo

Para mim, a fotografia de paisagem é um momento de reflexão e de meditação. Fotografar o nascer do sol e assistir ao nascimento de um novo dia proporciona um sentimento de relaxamento e também de esperança – um novo dia que desponta em frente aos nossos olhos com mil e uma oportunidades pela frente. E, quando a natureza nos brinda com céus coloridos e intensos, há um certo fascínio e excitação por estar à hora certa no local certo e poder registar numa fotografia esses espectáculos da natureza.

Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/11 . 0.5″ . ISO 160 – Praia da Azurreira, Ovar
Canon 700D . Canon EF-S10-18mmF4.5-5.6 @10mm . f/8 . 1/8″ . ISO 100 – Lagoa Comprida, Ilha das Flores, Açores

Contudo, a fotografia de paisagem é uma vertente fotográfica que também “exige muita disciplina e espírito de sacrifício”, para citar a minha colega fotógrafa Maria Alexandra Abrunhosa. De facto, nem sempre é fácil levantar-se de madrugada, fazer o percurso ainda na escuridão, muitas vezes com temperaturas baixas, ou ainda planear tudo ao pormenor para no final não haver aquele céu dramático tão desejado.

É raro chegar a um local e conseguir a fotografia pretendida à primeira tentativa mas isso faz parte do desafio que é a fotografia de paisagem. Posso dizer que já saí muitas vezes de madrugada para fotografar e não consegui a fotografia que queria, mas não posso dizer que me arrependi ou que não levei para casa pelo menos uma fotografia de que gostasse, apesar de não ser aquela que tinha em mente inicialmente. É essa a beleza da fotografia de paisagem: podemos visitar mil vezes o mesmo local mas nunca teremos duas vezes a mesma fotografia.

Nascer do sol na Pateira do lado de Fermentelos
Nascer do sol na Pateira do lado de Espinhel

(Por mais incrível que pareça, estas duas fotografias foram tiradas na mesma manhã em lados opostos da Pateira.)

Após seis anos com a minha fiel Canon senti necessidade em actualizar o equipamento. Não só queria um sensor mais capaz como também queria um equipamento que tirasse partido das novas tecnologias. As DSLRs com sistema full frame estavam fora de questão pois queria algo pequeno e leve para facilitar o transporte. Na minha pesquisa deparei-me com a Fujifilm, marca que até então nunca tinha equacionado. Fiquei agradavelmente surpreendida pela relação preço/ qualidade e decidi então adquirir a recém-lançada Fujifilm XT-3, juntamente com as objectivas XF 18-55mm f/2.8-4 e XF 10-24mm f/4.

O design da câmara encantou-me logo de imediato com o seu look clássico e analógico. Não só “tem pinta” como também é extremamente funcional, permitindo alterar definições sem ter que aceder ao ecrã do menu. No painel superior, possui três comandos manuais separados para o ISO, velocidade do obturador e compensação de exposição, assim como botões rotativos que permitem alterar o modo de medição da luz e o modo de obturação. Para além disso, os restantes botões físicos e menus da câmara são completamente personalizáveis, sendo assim muito fácil “criar” uma câmara de acordo com as minhas necessidades e estilo de fotografia.

É um autêntico prazer fotografar com a XT-3 pois o seu funcionamento é muito intuitivo, permitindo assim focar-me mais na parte criativa do que na parte técnica da fotografia. A qualidade de construção também foi um factor decisivo na escolha da câmara. O corpo da XT-3, tal como as objectivas, são resistentes ao pó e às intempéries, característica obviamente essencial para um uso prolongado em exterior. A nível de sensor, e apesar de ser APS-C, a XT-3 possui uma gama dinâmica excelente, originando ficheiros RAW de alta qualidade e com muito detalhe. O único ponto fraco que posso apontar é realmente a duração da bateria, embora seja um problema fácil de contornar ao adquirir baterias de substituição.

No que toca à preparação para as saídas fotográficas, para mim, quanto mais simples, melhor. Gosto de levar apenas o essencial. Para além da câmara e das objectivas, levo os meus filtros, baterias extras, um pano de microfibra e o tripé. Os filtros são indispensáveis pois, na minha opinião, estes desempenham um papel importante na criatividade do fotógrafo. Os filtros polarizadores permitem remover os reflexos de superfícies espelhadas, tal como a água, ou ainda aumentar o contraste entre as nuvens e o céu azul.

Os filtros de densidade neutra permitem aumentar os tempos de exposição, criando um arrasto nas nuvens ou ainda um arrasto na água ao fotografar cascatas. Os filtros de densidade neutra em gradiente permitem, por sua vez, equilibrar as exposições quando há uma diferença de luz, facilitando assim a edição posterior. A minha escolha de filtros recaiu sobre os filtros da Haida por serem de óptima qualidade, a um preço acessível. Escolhi o kit Entusiasta da Haida com filtros de 100mm que inclui: um ND 3.0, um soft grad ND 0.9 e um filtro polarizador.

Pateira de Fermentelos, Águeda
Cascata da Cabreia, Sever do Vouga

Há também a possibilidade de recorrer a técnicas de múltiplas exposições (ou HDR), para quem não tem filtros. Usei esse método durante muitos anos antes de adquirir os filtros que tenho hoje. Consiste em tirar pelo menos três fotografias com exposições diferentes, e, posteriormente, usar um programa de edição para juntar as exposições de modo a obter uma imagem equilibrada. O uso de filtros elimina a necessidade de usar várias exposições, o que, por conseguinte, facilita bastante o pós-processamento.

Para editar os ficheiros RAW os programas que uso são o Lightroom, Photoshop, e, de vez em quando, o Capture One. No último ano, tenho deixado o rato de lado e apostei numa mesa digitalizadora Wacom Intuos. Para mim, esta ferramenta tornou-se imprescindível para uma edição mais rápida e sobretudo para ajustes mais precisos, especialmente com o uso do pincel no Photoshop e Lightroom.

Não menos importante, é também a forma como transporto o meu material. É essencial ter uma boa mochila que proteja bem o equipamento, tanto de quedas como das intempéries, sobretudo em viagem. Tal como procurava uma câmara pequena e leve, a escolha da minha mochila seguiu os mesmos critérios, pelo que comprei uma Lowepro Hatchback BP 150 AW II. É ideal para transportar a câmara e duas lentes, o que para mim é suficiente, assim como alguns itens pessoais, e não é nem muito grande nem muito pesada para poder viajar confortavelmente. Nunca me separo da mochila em viagem, enviando apenas o tripé para a mala de porão, se for uma viagem de avião.

Para as viagens em que não tenha mala de porão, investi num pequeno tripé da Joby, o GorillaPod 3K, perfeito para levar em cabine comigo. Foi o aliado perfeito para longas exposições em contexto urbano, pois, graças às suas pernas flexíveis, consegui afixá-lo em qualquer suporte.

Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @13.2mm . f/8 . 6.5″ . ISO 80 – Tower Bridge, Londres
Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/10 . 25″ . ISO 160 – The Garden at 120, Londres

Finalizo este artigo salientando que o segredo da fotografia de paisagem é o planeamento. Este abrange muito mais do que saber que parâmetros utilizar no momento do disparo. Analisar o local, a luz, as marés, a meteorologia ou ainda a altura do ano são factores importantíssimos na preparação de uma saída fotográfica.

Para me ajudar nesta tarefa recorro sempre à aplicação móvel PhotoPills, muitas vezes apelidada de “canivete suíço” do fotógrafo. A lista das suas funções é muito abrangente mas destaco aqui algumas: hora do nascer e pôr do sol, posição do sol e da lua a qualquer hora e dia, visibilidade e posição da via láctea, cálculo da distância hiperfocal, cálculo de longas exposições, cálculo da profundidade de campo, entre muito mais.

As melhores fotografias de paisagem não são fruto do acaso, mas sim fruto do planeamento e de muita paciência por parte do fotógrafo.

Fuji X-T3 . Fuji XF18-55mmF2.8-4 @18mm . f/2.8 . 30″ . ISO 1600 – Castelo de Valongo, Évora
Fuji X-T3 . Fuji XF10-24mmF4 @10mm . f/11 . 0.8″ . ISO 160 – Torreira, Aveiro

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4 comentários

  1. Un excelente Trabalho parabens ,São muitas horas de dedicaçao de amor pela fotografia…..continua sempre assim !!!😜👏👏

  2. No primeiro dia que te vi fotografar, disse para o José Moreira… esta tem “pinta”.
    Basta ver os teus trabalhos hoje para saber que tinha razão.
    A tua evolução e o modo como hoje vês de modo diferente a “paisagem” é fruto da tua dedicação e esforço. Beijinhos e parabens.

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