Chengdu: entre o tradicional e o cosmopolita

mm

Paulo Batista

"Chamo-me Paulo Batista, sou natural de Luanda, em Angola, e vivo em Lisboa. Fotografar e viajar são duas das coisas que mais gosto de fazer, pelo que sempre que faço uma viagem, em Portugal ou no estrangeiro, mais do que captar as pessoas, a forma como vivem, os seus costumes e os respetivos espaços, procuro contar uma história, sobre o que tudo isso me faz sentir, tentando traduzir as emoções em imagens."

Visite o meu Website
Ver todos os Posts

Depois de uma longa viagem, de mais de 20 horas, com duas escalas, a chegada a Chengdu, com uma diferença horária de 8 horas para Portugal, não começou da melhor forma. Na viagem do aeroporto para o hotel, cobraram-me 300 renmimbi (rmb), a moeda oficial da China, quando, soube-o mais tarde, o custo não ultrapassa os 60 rmb.

Ao chegar ao hotel as coisas não melhoraram, já que o som de Unchained Melody, dos Righteous Brothers, de It’s so easy to fall in love, de Buddy Holly, e de I feel good, de James Brown, pareciam ter tomado conta do espaço, repetindo-se até à exaustão… todos os dias! Admito, aprecio imenso estas sonoridades, mas, depois desta experiência, não quero ouvi-las nos próximos tempos!

Sempre que viajo para fora de Portugal, tento, tanto quanto possível, integrar-me na respetiva cultura e forma de viver, por exemplo, falando a língua, ouvindo as músicas e provando a comida desses países, pelo que fiquei surpreendido com o episódio descrito.

Malas arrumadas, duche retemperador, mudança de roupa, agora sim, estou preparado para começar a conhecer Chengdu, capital da província de Sichuan, no sudoeste da China, conhecida por conta da abundância de recursos naturais, beleza das paisagens, gastronomia e pelos pandas gigantes.

Apesar do verde da cidade, em oposição a outras metrópoles chinesas, o primeiro impacto é tremendo: Chengdu, com cerca de 9 milhões de habitantes, pouco menos que a população de Portugal, destaca-se pelos contrastes económicos e impressionantes arranha-céus, refletindo a sua importância, cada vez maior, que atrai multinacionais de inúmeros países.

Por outro lado, os inúmeros habitantes que circulam pelas ruas, com máscaras de proteção contra a poluição, mas sobretudo o trânsito, esse fantástico “caos ordenado”, onde, como que por magia, tudo parece fluir com naturalidade, apesar dos peões atravessarem passadeiras por entre motas e bicicletas sem fim, que surgem de todos os lados, completam um cenário difícil de esquecer. Envolvendo esta realidade, Chengdu é uma cidade que aparenta não dormir, com um movimento inusitado, logo pelas primeiras horas da manhã, que apenas acalma ao final do dia.

Apesar de já ter tido oportunidade de visitar inúmeros países, confesso que nunca, como aqui, me impressionou tanto o ritmo e a capacidade de trabalho dos seus moradores. De facto, sobretudo no comércio de rua, aconteceu-me, inúmeras vezes, estar a ser atendido e observar outros empregados a comer, numa rotina que quase desconhece pausas para almoçar, jantar, ou, apenas, descansar um pouco. Não menos impressionante, a população local, extremamente jovem, parece ter na tecnologia uma extensão do seu corpo, circulando e convivendo em permanente ligação com os dispositivos móveis.

Curiosamente, na China a censura e a monitorização online, por parte das autoridades, são uma realidade bastante presente, pelo que não é possível aceder ao Google, Gmail, Facebook, Youtube, Twitter, WhatsApp, etc., o que me condicionou sobremaneira a ideia que tinha de trabalhar, à noite, no hotel. Nem de propósito, é em Chengdu que se encontra o centro tecnológico da Microsoft.

Nada que uma visita ao Giant Panda Research Base, ou simplesmente Parque dos Pandas, situado a cerca de 14 km a norte do centro da cidade, não resolvesse. Se é difícil resistir a um panda, como consegui-lo com dezenas deles, muitos dos quais recém nascidos, ainda em incubadoras, sendo mesmo possível tirar fotos com os mesmos ao colo? É esta estação de pesquisa dedicada à conservação dos ursos pandas, verdadeiros símbolos e tesouro nacional da China, que dá fama planetária a Chengdu, e que faz com aqui afluam pessoas de todos os cantos do mundo.

Como me foi dito, os pandas apenas existem nas províncias de Sichuan, Shaanxi e Gansu, dos quais a grande maioria destes adoráveis e pachorrentos animais, que passam a maior parte do tempo a dormir e a comer bambu, estão nesta reserva, onde também é possível ver outras espécies de panda, inclusive os vermelhos, que são muito mais ativos.

Bem mais significativo do que as primeiras impressões, e mesmo da visita a alguns dos seus locais turísticos, como o monte Emei, a montanha Qingcheng, a Cabana de Du Fu, os santuários Wuhou e Qingyang, o templo Daci, o mosteiro de Wenshu, o museu Jinsha, a praça Tianfu, ou o parque do Povo, no meu entender, o encanto de Chengdu descobre-se quando nos perdemos e embrenhamos nas suas ruas, particularmente no Passeio Público Jinli, e nos misturamos por entre os seus habitantes, extraordinariamente educados e disponíveis para ajudar, pese a dificuldade que a maioria tem com a língua inglesa.

É aqui que, para lá da arquitectura típica e das icónicas lanternas, entramos, verdadeiramente, na cultura chinesa, nas suas tradições e no seu quotidiano, e nos surpreendemos ao virar de cada esquina, numa autêntica viagem no tempo, por entre lojas de artesãos e espectáculos, onde se destaca a Ópera de Sichuan, em que os atores deslumbram o público com as constantes e rápidas mudanças de caras representadas em máscaras coloridas pintadas à mão, que lhes ocultam o rosto.

Estas encenações sucedem-se, quer nas ruas, quer nas casas de chá, muito famosas em Chengdu, onde pessoas de todas a idades, sobretudo chineses, mas também estrangeiros, se reúnem para conversar e degustar um chá, normalmente de jasmim, num cerimonial repetido vezes sem conta, e que permite observar e sentir a alma da cidade, sem pressa, usufruindo da paz destes espaços. A doce ilusão do tempo parar parece ter encontrado aqui o seu berço.

Contudo, as opções das casas de chá em Chengdu não ficam por aqui, já que é possível beber um chá e desfrutar, em simultâneo, de uma massagem da cabeça ou limpar os ouvidos, esta última um complexo e antigo ritual, com a duração de 20 a 30 minutos, efetuado com diversas ferramentas de metal, à vista de qualquer transeunte, que tem como objectivo remover a cera do canal auditivo.

Para lá das casas de chá, são sobretudo os pequenos restaurantes e bancas de comida de rua que nos transportam para a prestigiada culinária de Sichuan, considerada como uma das quatro principais cozinhas da China, com mais de 4.000 pratos e, seguramente, a mais apimentada. E aqui é incontornável falar do famoso mapu dofu, um ensopado com carne ovina ou bovina picada, tofu, feijão preto fermentado, brotos de alho, cebolas verdes, vinho de arroz e óleo picante.

Do ponto de vista fotográfico, posso dizer que, desde que aterrei, até regressar a Lisboa, encontrei razões fantásticas para fotografar, no meu caso com um telemóvel Samsung Galaxy A40. Do quotidiano das pessoas nas ruas, bastante amistosas e receptivas a serem fotografadas, aos locais emblemáticos, Chengdu possui uma atmosfera feérica e vibrante de cor, luz e movimento, não faltando oportunidades para registar em imagens.

Tudo somado, fica a vontade de regressar a esta cidade, uma mistura perfeita entre o tradicional e o cosmopolita da China.

Também poderá gostar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *