Mito: foto genuína é aquela em que não há edição (#semfiltro)

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Victor Maciel

"Sou Victor Maciel nascido no Brasil e, desde 2014, resido em Portugal, onde estudo Economia na Universidade de Coimbra. Além de escrever artigos sobre Economia e Política, dedico parte do meu tempo livre à fotografia como forma de expressão com um carinho especial pelos domínios da astrofotografia e fotografia urbana."

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Provavelmente, você já deve ter visto pessoas utilizarem a hashtag semfiltro nas redes sociais com a intenção de mostrar que a foto publicada é genuína, sem haver distorções da realidade. Só que não é bem assim que funciona. Vamos entender:

O primeiro ponto que leva as pessoas a postarem #semfiltro está relacionado a um outro mito: a foto apresentada na câmara é exatamente como vemos ao olho nu.

Por mais que uma câmara tenha alguns funcionamentos similares ao olho humano, como a abertura do diafragma, a câmara continua a ser uma máquina imperfeita. O sensor contido na máquina fotográfica não tem a mesma capacidade da retina de interpretar a luz em imagem da mesma forma. Enquanto os nossos olhos ainda consegue formar uma imagem de um cenário com luzes em diferentes intensidades, até um certo nível, o sensor da câmara ainda possui esse recurso bem limitado. Para entender melhor esta parte, vamos à prática:

Foto 1
Foto 2
Foto 3

Como podemos observar, na foto 1, o céu aparece bem fotometrado e com detalhes que veríamos ao olho nu. Por outro lado, o objeto, na parte inferior da foto, apresenta-se subexposto, ou seja, escuro. Por que isto acontece? A câmara apenas consegue medir a luz em um ponto, ou em uma área específica, e não, em todo o cenário. Da mesma forma acontece na foto 2, o objeto possui uma boa luz, porém o céu está todo branco, o que na fotografia chamos de estourado, ou seja, sobrexposto. Portanto, fica a pergunta: qual das 3 fotos possui uma luz que mais aproxima-se do qual estamos habituados a ver com apenas com os nossos olhos? Certamente, seria a foto 3. E é exatamente a única foto das três que possui qualquer edição.

Segundo, a maior parte dos usuários das redes sociais postam e registam a suas fotos no formato JPEG. A câmara, ao registar neste formato, já faz um tratamento prévio como: diminuição do tamanho da imagem, alteração no contraste, na saturação, nitidez e etc. Já os fotógrafos profissionais, em sua grande maioria, fotografam em um outro formato que chamamos de RAW, traduzindo para o português, cru. Ou seja, esse formato garante que a fotografia apresentada é 100% sem edição, exatamente o que a câmara registou. Além disso, o RAW armazena todos os “dados” que o sensor da câmara capturou, permitindo a edição da fotografia ter maiores resultados. Conclusão, mesmo sem fazer qualquer edição da imagem, ao fotografar em jpeg, a sua fotografia já possuirá qualquer tipo de edição automaticamente.

Terceiro, mesmo se você considerar o segundo ponto como uma edição pouco relevante, ainda assim, muitas pessoas deixam o HDR do seu telemóvel no modo automático. Mas o que é HDR? HDR é uma ferramenta nos telemóveis, câmaras ou programas de edição, em que a câmara fotografa o mesmo cenário mais de uma vez com exposições diferentes e depois combinando as luzes dessas fotos para obter uma imagem com uma luz mais uniforme. Ou seja, um outro tipo de edição.

Portanto, se uma fotografia passou por qualquer tipo de tratamento ou não, isso não implica afirmar que a fotografia é mais ou menos genuína. A edição de imagem tem o seu nível de importância face a área em que o fotógrafo está a trabalhar. Por exemplo, no fotojornalismo, presume-se que o fotógrafo não faça edições, até um certo nível, para que a foto não fuja daquilo que foi visto naquele momento da captura. Por outro lado, um fotógrafo que trabalhe com decoração de interiores provavelmente vai precisar de fazer edições mais rígidas conforme o trabalho proposto. E assim vai variando conforme o nicho que o fotografo está a trabalhar.

Concluindo, se o seu colega fotógrafo está a editar uma fotografia, não o julgue mal. A fotografia é uma arte assim como a música, a pintura e a poesia onde o autor adiciona o seu estilo, como forma de assinatura, à sua obra.

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1 comentário

  1. Não entendo como “foto sem filtro” que a mesma represente o que o olho humano vê no momento, mas sim que é 1 foto tirada comas limitações que existem no momento tanto hardware/técnica/luz e que de um modo ou outro se pode assemelhar muito ao que o olho humano viu no momento isso depois caberá ao fotografo identificar se o é ou não. Tipicamente não gosto de fotos que sofrem produção pois acho que na sua generalidade são demasiado alteradas e que não correspondem nem perto da realidade. Eu gosto especialmente de fotos de Viagem, e o meu maior desgosto foi quando estava a planear uma viagem à Ásia via fotos que mostravam que a agua de lá era super cristalina e muitas vezes até parece que certos barcos estão a “planar” na verdade quando lá cheguei vi uma realidade em que nada se assemelha às fotos que tinha visualizado, e acho que isso é um pouco desrespeitoso para com as pessoas que idealizam uma coisa e depois as mesmas não tem nada a haver.

    Mas como disse é um gosto pessoal e nada tenho contra a edição pois acho que devem de ser retocadas mas de maneira que não se retire a essência do local e se fuja da realidade como tantas vezes vejo.